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A velocidade do clima

Não há mais dúvidas de que as mudanças climáticas estão ocorrendo, que seus efeitos já podem ser observados, e que grande parte da culpa é do 'Homo sapiens'

Fernando Reinach, colunista

07 de dezembro de 2019 | 03h00

Não há mais dúvidas de que as mudanças climáticas estão ocorrendo, que seus efeitos já podem ser observados, e que grande parte da culpa é do Homo sapiens. Agora, cientistas estão voltando seus esforços para determinar se essas mudanças ocorrerão de maneira gradual e linear ou se há um ponto crítico (o “tipping point”).

Pensando em como explicar o significado de “tipping point”, lembrei do sujeito que ensinava seu burro a comer menos, reduzindo a ração dia a dia: “Depois de meses de treinamento, quando o animal estava quase aprendendo a não comer, levei um susto. O burrinho amanheceu morto”. 

Nosso amigo achava que estava lidando com um processo linear, mas esqueceu que há um “tipping point”, em que o processo deixa de ser linear, acelera e toma outra direção. A expressão tem origem no que ocorre com balanças de dois pratos: você coloca um saco de arroz de um lado e vai adicionando pesos do outro. Nada acontece até que, de repente, a balança pende totalmente para o outro lado. Você atingiu o “tipping point”.

Se o aquecimento global for um fenômeno linear, a Terra vai aquecer lentamente, o gelo dos polos vai derreter, o nível do mar vai subir e o clima vai ficar mais instável. Tudo de forma gradativa, ao longo de séculos ou milhares de anos. Mas pode ser que o processo não seja linear, possua “tipping points”, em que mudanças ocorrem rapidamente. Em artigo recém-publicado, cientistas argumentam que, apesar de ainda não sabermos com certeza se há “tipping points”, o simples fato de eles poderem existir deveria nos deixar de cabelo em pé. 

Os cientistas descrevem fenômenos associados às mudanças climáticas que provavelmente vão exibir comportamentos não lineares e tentam estimar quão distantes estamos desses possíveis “tipping points”. A lista inclui desde o desmate da Amazônia, passando pelas mudanças de correntes marítimas e o derretimento do solo congelado no norte da Rússia. 

No leste da Antártida, na Bacia de Wilkes, o gelo está derretendo continuamente há algumas décadas. Esse processo está aumentando de velocidade nos últimos anos depois que as geleiras se tornaram instáveis. Só isso deve aumentar o nível do oceano em 3 a 4 metros. No oeste do continente, no mar de Amundsen, o gelo já está desestabilizado e modelos sugerem que grande parte das geleiras deve derreter de modo irreversível, o que adicionará 3 metros ao nível do oceano. A mesma aceleração ocorre na Groenlândia, o que deve adicionar outros 7 metros. 

Nesses três casos, aparentemente o processo é irreversível nas temperaturas atuais, mas cientistas ainda não são capazes de prever o tempo para que se completem. Modelos sugerem números que vão de alguns séculos a mil anos mantidas as temperaturas atuais. Caso a temperatura aumente mais 1,5ºC, o que pode ocorrer até 2030, o processo pode acelerar de modo não linear. Imagine o mar 12 a 15 metros mais alto. Cidades como Rio e Santos estarão submersas. Dependendo da velocidade de aumento da temperatura, isso pode levar 200, mil ou 10 mil anos.

Para entender o “tipping point”, é necessário compreender como diferentes fenômenos interagem. Exemplo: o aquecimento está provocando o degelo de solos congelados na Rússia, o que deve liberar grande quantidade de gases de efeito estufa que, por sua vez, aceleram o aumento da temperatura. As consequências do aquecimento se somam (ou se multiplicam) acelerando o processo. O que não se sabe é a velocidade com que o ambiente vai se alterar. 

Além de acompanhar os fenômenos para entender melhor seu comportamento, a humanidade pode tomar duas atitudes. A primeira é esperar para ver se tudo se materializa ou não passa de alarmismo. A outra é assumir a possibilidade de essas suposições se concretizarem e, nesse caso, apesar de o risco ser pouco conhecido, as consequências são suficientemente nocivas para justificar medidas mais radicais de controle do aquecimento.

Pessoalmente sou pessimista. Acredito que a humanidade é incapaz de sacrificar o bem-estar no presente ou em um futuro próximo em prol de gerações que ainda não nasceram. Mas uma coisa é certa: nenhum de nós estará por aqui para viver essa desgraça

Mais informações: 

Climate Tipping Points - Too Risky To Be Against. Nature Vol. 575 (2019)

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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