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A velocidade dos sonhos

Nada garante que a passagem do tempo no sonho seja igual à passagem do tempo na vigília

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2019 | 05h00

Se posicione no topo de uma escada com um cronômetro na mão. Agora desça marcando o tempo. Vamos supor que você levou dez segundos para descer a escada. Ótimo. Agora imagine que você sonhe que está descendo essa mesma escada com o cronômetro. Durante o sonho, olhando o cronômetro, você constata que levou dez segundos para descer a escada. Ou seja, o sonho reproduziu exatamente o que você viveu quando estava acordado. A pergunta que os cientistas se fazem é a seguinte: quantos segundos durou o sonho no qual você desce a escada em dez segundos? 

Se a passagem do tempo durante um sonho é igual à passagem do tempo no mundo real, seu sonho deve ter durado exatos dez segundos. Mas isso não é obrigatório - o sonho pode ter durado só dois segundos ou talvez 50 segundos. Nada garante que a passagem do tempo em um sonho seja igual à passagem do tempo durante a vigília. Esse é um problema para o qual os cientistas ainda não têm uma resposta. Há métodos para saber quando uma pessoa está sonhando, mas não há uma maneira de saber o que exatamente ela está sonhando. Assim, determinar a velocidade exata com que o tempo passa no sonho é impossível.

Mas Joseph Barcroft, um famoso cientista inglês, pioneiro no estudo do transporte de oxigênio e gás carbônico no sangue, mandou uma carta para a revista Nature descrevendo um sonho que permitiu o cálculo da velocidade com que transcorre o sonho. Pelas suas contas, o tempo no sonho transcorre 20 vezes mais rápido do que o tempo da experiência real. 

O sonho: Bancroft sonhou que estava no laboratório fazendo experimentos em sua bancada quando ouviu o ruído de uma gota de mercúrio caindo no chão. Ele continuou a fazer o experimento e as gotas se sucediam, uma após a outra. Em dado momento do sonho, ele ficou preocupado com os pingos e decidiu tampar o vazamento. 

Acontece que, à medida em que começou a se movimentar para tampar o vazamento, as gotas aumentaram a frequência com que caíam. E a velocidade foi ficando mais rápida até que ele acordou e percebeu que o barulho das gotas nada mais era que o tique-taque de seu relógio. O tique-taque de seu relógio havia aparecido no sonho como o som de gotas caindo.

A interpretação de Bancroft: No início do sonho, quando ele estava trabalhando na bancada, percebeu que entre duas gotas ele tinha executado diversas ações (misturar uma solução ou apertar um parafuso). Ele voltou ao laboratório e mediu o tempo que levava para executar essas ações na vida real e chegou à conclusão de que o que havia feito levava cinco segundos. Ou seja, o tempo no sonho entre duas gotas pingando era de cinco segundos. 

Então, ele foi ver o tempo entre os tique-taques de seu relógio. Constatou que o tempo entre os tique-taques era de 0,25 segundo. Como ele acredita que os pingos de mercúrio correspondem ao tique-taque do relógio, as atividades que ele executou durante o sonho duram cinco segundos no mundo real, mas, durante o sonho, levam somente 0,25 segundo. Ou seja, cinco segundos de sonho transcorrem em 0,25 segundo. No sonho, portanto, o tempo transcorre 20 vezes mais rápido do que no mundo real (cinco segundos passam em um quarto de segundo).

Essa interpretação é perfeita contanto que você acredite que as gotas durante o sonho correspondam ao tique-taque do relógio. Se isso é verdade, o raciocínio é correto e o cálculo pode ser feito, pois uma unidade de tempo constante, vinda do mundo real, aparece dentro do sonho e pode ser usada para medir o tempo (no caso as atividades na bancada). Mais que isso: as gotas de mercúrio ficam mais frequentes e aos poucos se convertem no tique-taque do relógio quando Bancroft acorda, o que realmente indica que houve uma intromissão da realidade no sonho.

Joseph Bancroft viveu entre 1872 e 1947 e seu sonho e a carta à Nature são de 1919, exatos cem anos atrás e vinte anos após Freud ter publicado seu livro sobre a interpretação dos sonhos. Todas as semanas, a revista Nature procura no volume publicado cem anos atrás algo interessante, mas é raro encontrar nesses artigos soluções para problemas que continuam tirando o sono dos cientistas.

MAIS INFORMAÇÕES: JOSEPH BANCROFT: TIME RELATIONS IN A DREAM. NATURE VOL 104 OCTOBER 23, 1919.

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