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A volta do LSD aos laboratórios

Entre 1950 e 1974, essa molécula foi estudada em várias universidades

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2018 | 03h00

Entre 1974 e 2009, um período de 35 anos, cientistas foram proibidos de estudar os efeitos do LSD. Poucos sabem, mas entre 1950 e 1974 essa molécula foi estudada em diversas universidades e usada no tratamento de diversas doenças. Mas agora o LSD voltou a ser estudado e tudo indica que algum dia ele chegará às farmácias.

Tudo que acontece em nosso corpo é mediado por moléculas químicas. É por isso que as estantes das farmácias estão cheias de caixinhas com moléculas capazes de modificar o funcionamento de nosso corpo. Grande parte dessas moléculas altera o funcionamento do corpo sem que nossa mente perceba o que está acontecendo. Um exemplo são as estatinas, que diminuem a quantidade de colesterol no sangue; outro são os medicamentos para diabete.

Outras moléculas agem sobre a mente e fazem desaparecer temporariamente nossa consciência, a percepção de existirmos, o que os filósofos chamam do “eu”. Exemplos são os anestésicos gerais. Quem já tomou uma anestesia geral sabe que por algumas horas o que chamamos de “eu” some, e só volta quando o efeito passa. Além disso existem as moléculas que alteram a maneira como o “eu” lida com si próprio, com o resto do corpo e com os sinais recebidos do meio ambiente. Essas moléculas incluem os ansiolíticos, os antidepressivos, os estimulantes e as moléculas que chamamos de drogas, como o álcool e a cocaína. Mas será que existem moléculas que afetam a maneira como percebemos nossa existência, ou seja, moléculas que afetam diretamente a natureza do “eu”?

Em 1938, um cientista chamado Albert Hofmann, que trabalhava na empresa farmacêutica Sandoz, sintetizou uma molécula aparentemente inócua que ficou na estante até 1943. Foi quando Hofmann acidentalmente ingeriu a substância e percebeu que ela agia sobre a percepção que temos de nossa identidade, causando alucinações poderosas. Entusiasmada, a Sandoz começou a produzir a substância e incentivou muitos grupos de pesquisa a estudar possíveis usos para esse composto que parecia promissor.

Entre 1950 e 1974, um grande número de trabalhos científicos demonstrou que as alucinações causadas por essa substância ajudavam pacientes com problemas de alcoolismo e depressões resistentes aos tratamentos existentes. Outras triptaminas, como o psilocybim, pareciam ter efeitos semelhantes. Esses estudos iniciais sugeriram que, em vez de alterar a maneira como nossa mente (o famoso “eu”) interagia com os sentidos e com outras funções da mente, essas novas moléculas alteravam a própria natureza do que chamamos da consciência de nós mesmos (o tal “eu”). Além disso essas moléculas pareciam não ter efeito sobre outros sistemas do corpo e não causariam dependência.

Foi por volta de 1953 que os cientistas descobriram que compostos semelhantes, também triptaminas, estavam presentes em nosso cérebro, onde fazem o papel de neurotransmissores (a serotonina é uma triptamina). Além disso, foi descoberto que muitas triptaminas são o composto ativo de plantas e cogumelos que causam alucinações e são utilizadas por diversas culturas em rituais religiosos. 

A partir de 1965, o uso dessas substâncias escapou dos laboratórios e do controle governamental. Muitas pessoas que passaram a consumir o LSD ficaram fascinadas. Isso coincidiu com os movimentos estudantis de 1968 e a guerra do Vietnã, o que levou multidões de jovens a experimentar o LSD. Em 1974, preocupado com os efeitos dessa substância e imaginando que ela era uma das causas das revoltas estudantis, o governo americano tomou uma medida radical: proibiu seu uso e descontinuou todos os programas de pesquisa. A Sandoz parou de produzir e o LSD se tornou uma droga ilegal.

Durante as décadas seguintes, um grupo de cientistas que acreditava no potencial terapêutico dessas moléculas travou uma luta de trincheiras para liberar novamente os estudos. Tiveram sucesso e em 2009 os estudos científicos recomeçaram. 

Agora, um novo livro relata a história científica dessas moléculas, o que havia sido descoberto antes da proibição, as dúvidas que atormentavam os pesquisadores, seus efeitos e todo o processo que levou à proibição das pesquisas. O mais interessante é o relato do que foi descoberto desde 2009. Diversos estudos, com centenas de pacientes, têm demonstrado que o LSD e o psilocybim podem ajudar pessoas com depressões resistentes a medicamentos, alcoólatras, e principalmente pacientes com câncer terminal. 

Isso tudo sem falar da possibilidade de usar essas moléculas para entender esse processo mental que chamamos de consciência e a natureza do que chamamos de “eu”. O mapeamento das mudanças causadas por essas triptaminas no cérebro de pessoas saudáveis tem ajudado os cientistas a entender as áreas do cérebro envolvidas no surgimento da consciência e do senso de identidade.

Testes clínicos já estão em andamento, mas ainda é cedo para saber se essas triptaminas serão reconhecidas como tratamentos efetivos para as diversas doenças que estão sendo investigadas. Até agora os resultados são considerados animadores. Caso essas descobertas se confirmem daqui a algumas décadas, teremos caixinhas de LSD e psilocybim nas prateleiras das farmácias. 

Enquanto isso não ocorre, uma pesquisa de 2007 constatou que 10% da população americana já tomou LSD uma vez na vida e 0,7% toma LSD todos os anos.

MAIS INFORMAÇÕES: NO LIVRO DE MICHAEL POLLAN, HOW TO CHANGE YOUR MIND, PENGUIN PRESS (2018)

*É BIÓLOGO

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