A voz da Geração +20

Em entrevista ao ‘Estado’, sete jovens que nasceram na época da Eco-92 mostram-se otimistas - e críticos - diante dos desafios verdes

Roberta Pennafort e Clarissa Thomé, de O Estado de S. Paulo,

02 Junho 2012 | 18h45

Em 1992, enquanto representantes de mais de 170 países discutiam no Rio formas de frear as agressões ao meio ambiente dali por diante, eles olhavam o mundo pela primeira vez. Hoje, os jovens da geração Eco-92 mostram mais interesse pelos temas ambientais do que tinham seus pais e avós.

 

O Estado convidou um grupo de meninos e meninas de diferentes origens e posicionamentos, que têm em comum o fato de terem nascido naquele ano, para discutir a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20).

 

Thomas, Kevin, Júlia, Mayara, Caio, Yasmin e Welbert foram selecionados entre indicações de organizações não governamentais (ONGs) e universidades e em redes sociais.

Às vésperas da conferência, temas como desenvolvimento sustentável, economia verde, Código Florestal e Belo Monte estão na pauta da maioria. Em uma conversa que durou cerca de uma hora e meia, os sete - autointitulados "otimistas críticos" (com uma exceção, Júlia, mais cética) - falaram de suas expectativas e desconfianças e de como lidam com as preocupações ecológicas no dia a dia.

 

Qual o interesse de vocês na Rio+20 e o que esperam da conferência?

 

Thomas: Vou participar da Cúpula dos Povos, mas não sei exatamente o que esperar. A gente hoje discute muito mais sobre o meio ambiente do que antigamente, mas na prática vai haver mudanças? Acreditávamos no veto total ao Código Florestal, e a aprovação parcial teve uma repercussão forte fora do País. O Brasil vai ser a sede, deveria ser o exemplo.

 

Kevin: Não estou acompanhando muito. Como uma pessoa de pensamento positivo, espero que sirva para que os governantes digam ‘erramos nisso, acertamos ali, vamos melhorar aqui’. Os europeus são muito mais engajados do que nós.

 

Júlia: Sou um pouco cética. Acho contraditório se fazer a reunião 20 anos depois sem incluir na conferência oficial a avaliação do que foi feito e o que não foi feito desde a Eco-92. Também me preocupa o fato de as negociações não apontarem para metas a serem cumpridas. E sobre a economia verde tenho uma visão muito crítica quanto aos mecanismos propostos, como a compra de créditos de carbono. Não dá para achar que a solução da questão ambiental vai se dar via mercado, transformando recursos naturais em papéis negociáveis. Estão negociando a permissão de destruir o mundo.

 

Mayara: Fui a uma palestra cujo tema era Rio+Quantos?. Quantas negociações serão necessárias para resolver os problemas ambientais? Um dos temas é a erradicação da pobreza. Como, se estamos inseridos no capitalismo, um sistema que pressupõe a concentração de renda, ou seja, para eu ser rica, alguém tem de ser pobre? Mas é importante termos a Rio+20, como foi importante ter a Eco-92, porque a partir daí começamos a discutir temas que não eram tratados. Os debates anteriores nos permitem hoje ser críticos com nossos governantes.

 

Welbert: Como o mundo mudou bastante, eu até creio que saia algo de positivo.

Caio: Acho que está mais difícil negociar hoje. Em 1992 havia uma situação diferente. Em 2008, houve uma crise financeira forte. Ninguém quer negociar em período de crise, todo mundo quer crescer. Os países que estão crescendo - Brasil, Rússia, China, Índia - tentam se engajar na questão ambiental, porque é impossível hoje em dia crescer no modelo anterior, apoiado em poluição e energias não renováveis. Mas quem vai deixar de poluir, os pobres?

 

Yasmin: Um dos pontos positivos é o debate de ideias e o que pode resultar delas. Acredito na imaginação das pessoas, na força da sociedade civil. É utopia ficar achando que as corporações e os governantes vão colocar a questão ambiental na frente. Os países mais poderosos não vêm à conferência. E para quem vai ser a conferência? Para reunir os povos? Os povos já estão criando as suas soluções, pensando em sustentabilidade.

 

A preocupação com o ambiente está presente no cotidiano de vocês?

 

Yasmin: Lá em casa nossa alimentação é bem reaproveitada: usamos casca de banana para fazer brigadeiro, meu pai escova bem a cenoura para não desperdiçar a casca. Levo sacola para o supermercado, ando de bicicleta. Fui a um evento em São Paulo e me questionaram por que eu não pedalava para a faculdade. Mas como pedalar na Via Dutra, no subúrbio, com a rua toda irregular? Na Lagoa (na zona sul) é fácil. Ainda vou fazer um projeto com esse foco.

 

Caio: A gente tem boiler e eu tomo banho frio para não desperdiçar a água até ela esquentar. Também separo lixo. Na minha cidade tem um lixão em cima de um morro, e tenho medo de ser mais um Morro do Bumba (favela sobre um lixão onde um desmoronamento, em 2010, matou 267 pessoas).

 

Thomas: Também tomo banho frio. Chuveiro elétrico gasta energia demais. Tem de fazer um sacrifício pessoal. O bom é que o banho fica mais rápido, gasta menos água. Em Porto Alegre, no Fórum Social, a gente só usou energia eólica e solar, e vi que é viável. O Brasil tem potencial para se abastecer só com energias limpas.

 

Júlia: Eu separo lixo, mas já vi o caminhão comum passar e juntar tudo... Aí desanima...

Mayara: Separo vidro e tentei fazer coleta de papel, mas na zona norte não dá. Lá em casa, somos dez, e nos esforçamos para baixar a conta de luz de R$ 200. Não adianta ser hipócrita e dizer que é só pela ecologia, é uma economia também. Quando eu tinha 15 anos, fizemos - eu, minha mãe e umas vizinhas - coleta seletiva, de porta em porta, e com a venda do material conseguimos reformar o hall do prédio e o salão de festas.

 

Essa educação ambiental veio da escola?

 

Kevin: A minha sempre teve projeto de reciclagem, de reaproveitamento de papelão, pet. Sou ator também e já participei de uma peça de teatro em que todo o cenário era feito de material reciclado.

 

Yasmin: Hoje acho que rola até mais. No Discovery Kids tem mensagem direto. Eu dou aula na área de audiovisual em Cieps (Centros Integrados de Educação Pública) da Baixada e vejo que tem grupos de agitação cultural dentro das escolas que discutem questões ambientais, produzem filmes sobre o assunto.

 

Welbert: Cresci sabendo que era para economizar água, energia, que não podia jogar lixo na rua. Na Cidade de Deus, eu participei de um projeto chamado Pandas Verdes. Juntava muito lixo nas calçadas (a comunidade foi considerada a que mais produz lixo no Rio), e tínhamos a intenção de usar o dinheiro da reciclagem para melhorar o estado das ruas.

 

Caio: Na minha cidade (São Fidélis), uma professora levou a gente para conhecer o lixão. Não conseguia respirar direito, nunca esqueci. Depois disso, não queria mais consumir nada, produzir lixo, porque sabia que tudo ia parar lá. Todo o esgoto da cidade é jogado nos rios. Mas o ar é puro. Quando eu vim para Niterói e para o Rio, vi que tem uma faixa preta no horizonte.

 

Júlia: É muito hipócrita ver a Rio+20 acontecer, sabendo que o Rio tem os piores empreendimentos possíveis (em termos de impacto ambiental): (a siderúrgica) CSA, Comperj (Complexo Petroquímico do Estado do Rio), Porto do Açu...

 

Thomas: Tem muita coisa errada. O Brasil investe no pré-sal e a gente já viu acidente na Bacia de Campos, como teve no Golfo do México. A Angela Merkel (chanceler alemã) não quer energia atômica na Alemanha, mas quer investir em Angra 3... Belo Monte será uma catástrofe. Na hora que alagar, vai ter muito animal morrendo.

 

Caio: Espera para ver o que vão fazer na Amazônia!

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