Academia precisa de nova visão de inovação, dizem especialistas

Para membro do comitê Supernova, mudança deve permear todos os componentes da cadeia de produção

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

28 Junho 2014 | 19h36

Entraves legais e burocráticos não faltam. Pouco adiantará mudar as leis, porém, se aliado a isso não houver uma mudança “cultural” na maneira como a academia brasileira encara a inovação e o empreendedorismo - atividades que, inevitavelmente, exigem uma parceria entre pesquisa pública e privada, segundo especialistas.

“Precisamos criar a figura do docente empreendedor”, diz o engenheiro José Antonio Siqueira, da Escola Politécnica da USP, membro do comitê do programa Supernova/Spark. A mudança, segundo ele, deve permear todos os componentes da cadeia de produção científica e tecnológica, incluindo pesquisadores, instituições e agências de fomento. 

Mesmo com as amarras legais vigentes, que dificultam a interação entre academia e indústria, Siqueira acredita que seria possível inovar muito mais do que se faz atualmente. “Há entraves, sem dúvida, mas a USP tem espaço para ser muito mais empreendedora do que está sendo”, diz.

Depositar patentes é um primeiro passo nessa direção, mas está longe de ser suficiente. “Eu tenho 1,2 mil patentes na prateleira hoje. Isso é prejuízo, não é fator de inovação”, diz o coordenador da Agência USP de Inovação, Vanderlei Bagnato. “Patentear é um hábito saudável, mas só conta como inovação se virar produto no final da linha.”

Esse é o passo a mais que o Supernova quer incentivar os cientistas a dar. “Precisamos educar e conscientizar a academia de que isso é importante”, diz o pesquisador Julio Ferreira, do ICB, um dos organizadores do programa. “Só uma minoria dos acadêmicos pensa dessa forma. Ainda há um certo preconceito sobre conversar com a indústria.”

O biólogo Diogo Biagi sentiu isso na pele recentemente, quando resolveu interromper a carreira acadêmica na USP para abrir uma pequena empresa de biotecnologia em Campinas, baseada em células-tronco de pluripotência induzida (iPS). “Várias pessoas não entenderam a minha decisão. A expectativa é que você vire professor”, conta. “É um pensamento bem arcaico, enraizado na academia.”

“Formamos pessoas para serem funcionárias públicas, não empreendedoras”, diz João Calixto, pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina e diretor do Centro de Inovação e Ensaios Pré-clínicos.

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