Achando memórias perdidas

É comum perdemos uma memória. Às vezes, percebemos que não lembramos de algo, outras nem lembramos que lembrávamos de um fato. A realidade é que a perda de memória afeta todos nós à medida que envelhecemos. Em pacientes com Alzheimer isso ocorre nos estágios iniciais da doença.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2016 | 03h00

Mas o que significa “perder a memória”? Será que uma memória simplesmente desaparece do nosso cérebro, como um arquivo desaparece do computador quando é apagado, ou será que ela ainda está lá, e deixamos de ser capazes de trazer uma memória específica para a consciência? É sabido que muitas vezes a mente humana se recusa a chamar para a consciência uma dada memória e ela fica reprimida por anos. Nesses casos, ocorre uma inibição ou bloqueio do processo que traz uma memória para a consciência, ela permanece no inconsciente, e só sabemos que é isso que ocorre pois em algum momento a memória “perdida” reaparece na consciência.

No caso do envelhecimento ou na doença de Alzheimer, o problema é mais complexo, pois como a pessoa nunca mais se lembra do que esqueceu, fica sempre a dúvida se o cérebro perdeu mesmo aquela informação ou se ela ainda está guardada em algum lugar. Agora um novo experimento resolveu esse problema.

Os cientistas utilizaram um camundongo que se comporta como um paciente com Alzheimer. Ele perde muito cedo as memórias e tem outras características semelhantes a seres humanos com a doença. Para estudar a manutenção da memória nesse animal os cientistas condicionam os bichinhos a ter medo de um dado ambiente: sempre que colocados no ambiente eles levam um choque. Em pouco tempo, eles reagem de maneira característica: “congelam” (evitam se mover) quando colocados no ambiente. Sabemos que camundongos com essa forma de Alzheimer esquecem mais cedo que devem ter medo desse ambiente agressivo. Camundongos normais raramente esquecem essa experiência traumática.

Sabemos também que, durante o processo de formação das memórias (quando eles levam o choque), um conjunto específico de neurônios é ativado e forma novas conexões. Também se sabe que é possível identificar esses neurônios, pois durante o processo de formação da memória eles capturam facilmente pedaços de DNA que depois podem ser usados como marcadores para identificar os neurônios envolvidos na formação da memória.

Os cientistas injetaram no cérebro desses animais, durante o período de formação das memórias, um gene capaz de “ligar” esses neurônios específicos. Mas o mais interessante é que esse gene só ativa os neurônios quando é iluminado com um laser. Como o interior do crânio é escuro, esse gene fica sempre desligado. Após o tratamento, os animais foram mantidos em gaiolas e ao longo de meses foram perdendo a memória (deixaram de ter medo da gaiola que dá choque).

Após a “perda” da memória os animais foram operados e foi colocada uma fibra óptica no interior do cérebro, sobre o local onde estavam os neurônios que haviam sido ativados durante a formação da memória. Quando os cientistas colocaram esses animais “esquecidos” no ambiente perigoso, eles se comportaram como esperado, não ficaram com medo, pois já tinham esquecido que podiam levar um choque. Mas, se nesse momento os cientistas acendessem a luz da fibra óptica, os camundongos imediatamente passavam a ter medo do ambiente. A luz era apagada e o medo desaparecia. Ou seja, os cientistas foram capazes de ligar ou desligar uma memória esquecida simplesmente ligando o botão da luz. Nada mal do ponto de vista tecnológico.

Esse experimento demonstra que, ao menos nesses camundongos, a memória não é perdida durante os primeiros estágios da doença de Alzheimer. Ela ainda está no cérebro, mas inacessível. Em outra palavras, a memória não desapareceu, mas ficou oculta. Isso, se for confirmado em seres humanos, abre a possibilidade teórica de se desenvolver um tratamento capaz de facilitar a recuperação dessas memórias. 

Se um dia isso se tornar realidade, quando esquecermos algo basta apertar um botão e o fio da memória voltará a funcionar e lembraremos do que havíamos esquecido.

MAIS INFORMAÇÕES: MEMORY RETRIEVAL BY ACTIVATING ENGRAM CELLS IN MOUSE MODELS OF EARLY ALZHEIMER’S DIESEASE. NATURE VOL. 531 PAG 508 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

 

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