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Adultos incapazes de se orientar

Pessoas que viveram a infância em locais mais complexos têm maior capacidade de orientação

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2022 | 05h00

Professores de uma escola de elite me contaram algo espantoso. Perguntaram aos alunos o que aconteceria se caminhassem sempre em frente, pela calçada diante da escola, sem atravessar a rua. Pouquíssimos deles sabiam que voltariam à frente do colégio. Como sempre se deslocavam pela cidade de carro, não sabiam que a calçada de um quarteirão forma um quadrado, e que, se você segui-la, volta ao mesmo lugar.

O ser humano nasce com enorme capacidade de se orientar no ambiente em que vive. Prova disso é que indígenas, em florestas tropicais densas, são capazes de caminhar dias de uma aldeia a outra sem se perder. Mas isso depende de treino e prática, como mostra claramente o exemplo dos alunos dessa escola de São Paulo.

A novidade é que os cientistas conseguiram demonstrar que adultos têm diferentes capacidades de orientação dependendo de onde passaram a infância. Qual seria a capacidade de orientação de alguém que cresceu no campo? E como ela se compara com a de quem cresceu em cidades com ruas organizadas de forma ortogonal (Chicago, Nova York) ou em cidades onde as ruas parecem formar um labirinto (Londres, Praga)? 

Para conseguir medir objetivamente a capacidade de orientação de milhares de adultos que cresceram em diferentes ambientes, os cientistas usaram o jogo de computador “Sea Hero Quest” (SHQ), desenvolvido para avaliar pacientes com Alzheimer. O jogador tem de se orientar em um labirinto de canais ou ruas para sair de um ponto e chegar a outro. Em cada nível, o desafio fica mais complexo. Já foi demonstrado que o sucesso nesse jogo mede muito bem a capacidade de orientação de pessoas saudáveis no mundo real.

Os cientistas usaram dados de 3,9 milhões de jogadores de SHQ e pediram para eles preencherem um questionário sobre onde passaram a infância. Deles, 397.162, de 38 países, deram as respostas com precisão. Foram analisados os mapas de onde essas pessoas haviam crescido e determinada a complexidade de sua geometria. Constatou-se que o sucesso no jogo é maior quanto maior é a complexidade do ambiente onde a pessoa cresceu. Quem teve poucos desafios na infância, pois viveu em locais simples, tem menos sucesso no jogo e menor capacidade de se orientar. É uma lição importante: nas cidades de baixa complexidade, privamos crianças de desenvolverem a capacidade de orientação. Mas tudo bem, existe o Waze para sanar essa deficiência educacional.

MAIS INFORMAÇÕES: ENTROPY OF CITY STREET NETWORKS LINKED TO FUTURE SPATIAL NAVIGATION ABILITY. NATURE HTTPS://DOI.ORG/10.1038/S41586-022-04486-7

*É BIÓLOGO

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