África e América Latina têm nomes fortes

Ganense e hondurenho, assim como cardeal milanês, surgem como favoritos à sucessão

Jamil Chade/ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2013 | 22h07

CIDADE DO VATICANO - Imediatamente após o anúncio da renúncia de Bento XVI começaram a circular nomes de cardeais que poderão ocupar o cargo máximo da Igreja. Há especulações de que o próximo pontífice poderia ser de um país em desenvolvimento. Para muitos, porém, o novo nome será determinado pelo caminho que a Igreja decidir adotar e a renúncia abre finalmente um debate sobre o futuro da instituição, algo que muitos acreditam que não ocorreu diante da decisão apressada para escolher um substituto para João Paulo II em 2005.

"Desta vez, a real transição para o século 21 talvez finalmente ocorra na Santa Sé", declarou ao Estado um importante religioso latino-americano que pediu anonimato. Um dos nomes citados é do africano Peter Turkson, de Gana. Um de seus cabos eleitorais já fez questão de defender ontem mesmo seu nome. "Por que não um africano? Já tivemos um alemão e um polonês. Então, o próximo pode ser, sim, africano", declarou o arcebispo Gabriel Charles Palmer-Buckle.

Bento XVI nomeou o ganense para um dos cargos mais importantes do Vaticano e ele passou a ser enviado a diversos países como mediador de conflitos. Em 2010, chegou a acompanhar o papa em viagens, o que aumentou as especulações sobre seu nome. Mas ele não é o único cotado. O cardeal sul-africano Wilfrid Napier, de Durban, é outro candidato, ainda que oficialmente ninguém se apresente.

Nas casas de apostas de Londres, a corrida já começou. Em pelo menos duas delas, Turkson é o favorito, seguido pelo arcebispo de Milão, Angelo Scola. Outro nome é o de Oscar Rodríguez Maradiaga, de Honduras. Amante de jazz, amigo de Bono Vox e frequentemente acompanhado de seguranças em seu país de origem, o cardeal centro-americano tem a simpatia das alas do Vaticano que defendem uma agenda social mais explícita. "Um papa do sul sem dúvida ajudaria a resolver muitas das ameaças que o planeta enfrenta", disse há dois meses.

O canadense Marc Oullet e o nigeriano Francis Arinze também aparecem com chances.

Pela Ladbrokes, d. Claudio Hummes aparece na décima posição. Mas, no Vaticano, são outros os brasileiros que aparecem com mais força, já que d. Claudio já tem 78 anos. Um dos nomes mais citados é o de d. João Braz de Aviz, de 65 anos. D. Odilo Scherer também é considerado "papável" e ontem fugiu da imprensa em Roma.

As especulações sobre a possibilidade de o novo papa vir da América Latina não ocorrem por acaso. A região tem hoje metade dos católicos do mundo e os cardeais são vistos como alguns dos maiores defensores da Igreja. "Conheço muitos bispos e cardeais latino-americanos que poderiam assumir essa responsabilidade", declarou Gerhard Muller, chefe da Congregação para a Doutrina da Fé.

Desafios. Teólogos alertam, porém, que os cardeais não se interessarão por nomes, mas pelo perfil que represente a escolha do caminho da Igreja. Na pauta de temas que o próximo papa terá de lidar estão os abusos sexuais dentro da Igreja, a homossexualidade, o aborto, o papel da mulher na Igreja e a aids.

Para alguns de seus críticos, Bento XVI não conseguiu reverter a maior ameaça para a Igreja, que é a perda de fiéis. No Vaticano, fontes revelam que nem mesmo sua viagem ao Brasil em 2007 conseguiu frear o crescimento do movimento pentecostal.

Para Hans Kung, teólogo suíço e considerado um dos principais adversários de Bento XVI, dificilmente a Igreja vai sofrer uma revolução. "Durante seu papado, ele ordenou muitos cardeais conservadores", apontou Kung. Segundo ele, isso determinaria a próxima votação. Ele ainda declarou que espera que Bento XVI não influencie na escolha.

Outros ainda apontam que a forma como Bento XVI anunciou sua saída estaria relacionada a um cálculo claro de dar tempo aos cardeais e à cúpula da Igreja de debater de fato seu destino.

"Cardeais terão agora a opção e o tempo de fazer o que não fizeram em 2005, que é debater o futuro da Igreja", disse Raymond Perrier, diretor do Instituto Jesuíta da África do Sul.

Para Mohammed Shafiq, da Fundação Ramadhan, outro desafio será o de lidar com o fato de a população islâmica ser hoje superior a de católicos. "O próximo papa terá de superar esse desafio e estabelecer um diálogo."

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