Tiago Queiroz/ Estadão
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Fernando Reinach
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Agricultura sem Amazônia

Simulações indicam que a preservação da floresta é essencial para o agronegócio

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2019 | 05h00

Se você acompanha a devastação da Floresta Amazônica, deve ter se perguntado o que acontecerá quando toda a floresta desaparecer. Agora dois cientistas americanos simularam esse cenário e a notícia não é boa.

Prever o futuro é difícil, mas foi exatamente para isso que o ser humano desenvolveu a Ciência. As leis da Física permitem prever o futuro de maneira perfeita para fenômenos simples. Sabemos exatamente quando vai ocorrer um eclipse. 

Quando fenômenos dependem de muitos processos, as previsões ficam mais imprecisas: não somos capazes de prever o dia de nossa morte, mas é certeza que todos morreremos antes dos 110 anos. Outros fenômenos são ainda mais difíceis de prever. Eles envolvem todo o planeta, como o ritmo do aquecimento global e suas consequências. Nesses casos, cientistas constroem modelos que simulam cada um dos fatores que influenciam o fenômeno, juntam todos em um supermodelo e tentam prever o que vai acontecer. É assim que são construídos os cenários de aquecimento global. A ideia é simples, mas na prática os modelos são complicados, e muitas vezes diferentes modelos produzem resultados discordantes. 

Um bom exemplo é a previsão da rota de um furacão. Os melhores modelos conseguem prever a rota do furacão, mas dificilmente acertam exatamente onde ele vai passar e qual será sua força. Mas isso não é um problema: é melhor um modelo razoável do que a ignorância. Foi usando esse tipo de modelo que dois cientistas do laboratório que analisa a rota de furacões e o aquecimento global tentaram simular o que aconteceria com o Brasil e o planeta se a Floresta Amazônica fosse derrubada. Para isso, eles começaram com dois dos melhores modelos que simulam o aquecimento global até 2050. 

Esses modelos assumem a configuração atual do planeta (temperatura, chuvas, ventos, marés, etc) e tentam prever o que vai acontecer à medida que a quantidade de gás carbônico aumenta. A cobertura vegetal do planeta é levada em conta e influencia o resultado. Por exemplo, eles preveem que o Saara vai continuar sem vegetação e a Floresta Amazônica continuará como é hoje (parcialmente preservada). O que eles fizeram nesse novo estudo foi modificar o modelo, substituindo toda a área da Floresta Amazônica por áreas contendo 50% ou 100% de pastagens (é bom lembrar que hoje já temos de 15% a 20% da floresta transformada em pastagens). Após essa única mudança, eles recalcularam o que deve acontecer nos próximos anos.

Sem a presença da Floresta Amazônica entre agora e 2050, os modelos indicam que devem ocorrer duas grandes mudanças. A primeira é que a temperatura da região amazônica deve aumentar entre 2°C e 3°C a mais do que o previsto inicialmente. Esse aumento não somente ocorreria na Amazônia, mas também, em menor escala, no Cerrado brasileiro. O mais preocupante é o que aconteceria com as chuvas no Brasil. Elas diminuiriam brutalmente na Amazônia e também no Cerrado. O nível dessa diminuição é suficiente para tornar a região imprópria para o cultivo de soja, algodão e milho. Essa falta de chuva se estenderia até o Sudeste. Ou seja, o Brasil seria forçado a abandonar seu papel de potência mundial na agricultura. Parte de nosso PIB simplesmente desapareceria.

É assustador, mas importante lembrar que essa é uma simulação preliminar, que vai ser refinada nos próximos anos, e que os resultados completos ainda não foram publicados em revista científica. De qualquer forma, essas simulações, mesmo que imperfeitas, indicam a direção da tragédia. Também sugerem que a preservação da Amazônia é essencial para o agronegócio brasileiro. 

Portanto, se você planta soja no Cerrado e está pouco ligando para a Amazônia, é bom educar seus filhos para procurarem outra ocupação. Seu ganha-pão e patrimônio podem desaparecer em 35 anos caso 50% da Amazônia seja desmatada. É mais uma razão para o setor progressista do agronegócio (que pensa além de uma década) começar a se preocupar com a Amazônia. Ambientalistas e agricultores deveriam começar a conversar antes que seja tarde.

MAIS INFORMAÇÕES: SHEVLIAKOVA, E. PACAIA, S. EXPLORING A WORLD WITHOUT THE AMAZON. GEOPHYSICAL FLUID DYNAMICS LABORATORY, NOAA 2019

*É BIÓLOGO

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