Alertas sobre escassez marcam comemorações do Dia Mundial da Água

Cerca de 20% da água doce do planeta está na Amazônia e a fartura dos recursos hídricos é uma característica de quase todas as outras regiões brasileiras, à exceção do semi-árido nordestino e algumas manchas mais secas, em meio aos cerrados e campos sulinos. O privilégio é imenso, se feita a comparação com outros países, incluindo os industrializados. Porém, não exime o Brasil de crises, como a vivida em 2001, com graves repercussões sobre a produção de energia e o abastecimento direto à população. E tudo por conta do desperdício, da poluição e do descaso histórico para com o planejamento do uso e a preservação da qualidade da água. Os alertas para os riscos de continuar neste caminho foram a tônica de diversas entidades ambientalistas e comitês de bacias hidrográficas, neste 22 de março, durante as comemorações do Dia Mundial da Água. Várias instituições divulgaram estudos e promoveram debates, em lugar de festas, preocupadas com a necessidade de conscientização e educação ambiental.Para o WWF-Brasil, um dos participantes do debate virtual "Água para o Desenvolvimento", promovido através do site "Rede das Águas (www.rededasaguas.org.br), há uma grave dissonância entre a disponibilidade de recursos hídricos (70% dos quais estão na Amazônia, onde vive menos de 12% da população brasileira) e a distribuição da população (concentrada no Sul, Sudeste e Nordeste, onde estão menos de 16% dos recursos hídricos). Segundo Samuel Barreto, do WWF-Brasil, "o problema se agrava com o desenvolvimento desordenado das cidades, com a ocupação de áreas de mananciais; precariedade do saneamento; poluição, desperdício e uso desequilibrado dos recursos hídricos, sendo 60% da água para irrigação, 20% para consumo industrial e 20% para consumo doméstico".?Podemos estar com a água até o pescoço e morrendo de sede?, pondera outro participante do debate, o deputado federal Antônio Carlos de Mendes Thame, ex-secretário Estadual de Recursos Hídricos, Saneamento e Obras de São Paulo. Ele aponta o crescimento populacional como um dos fatores, que conduz o Brasil para uma crise sem precedentes, cujos primeiros sinais foram sentidos no ano passado. A população brasileira cresceu 90% nos últimos 30 anos (de 90 para 170 milhões de pessoas), "mas a quantidade de água doce produzida pelo ciclo hidrológico é exatamente a mesma, é um recurso finito", diz. ?Não há nenhuma perspectiva de termos uma solução, que nos dê tranqüilidade para a questão da água, se não adotarmos as medidas adotadas em outros países com sucesso?. Para ele, é preciso investir em saneamento, aumentar a participação de todos os setores envolvidos nas decisões e aprovar leis de cobrança do uso da água.Conflitos à vistaNo mundo, a má distribuição de água doce já é fonte de numerosos conflitos, sobretudo no Oriente Médio e na Ásia, onde há a menor disponibilidade por habitante. A escassez também é a principal causa da degradação da qualidade de vida para um bilhão de pessoas, sem acesso à quantidade diária ideal estimada pela Organização das Nações Unidas (ONU). O padrão considerado bom para atender todas as necessidades de higiene, alimentação e limpeza é de 6,8 metros cúbicos/habitante/dia. No continente africano, cerca de 62% da população só tem acesso a algo em torno dos 4 m3/habitante/dia, sendo que, em algumas regiões, o índice é inferior a 3 m3/habitante/dia. Em média, o continente com maior disponibilidade de água é a Oceania, com 252 m3/habitante/dia, seguido da América do Sul, com 108; América do Norte, com 53; África, com 19; Europa, com 18 e Ásia, com 13. O Brasil tem cerca de 140 m3/habitante/dia. Considerando-se o crescimento da população e do consumo de recursos hídricos, a tendência de agravamento das crises é clara: apenas no século XX, a população mundial triplicou, enquanto a demanda por água cresceu 6 vezes. Em Nairobi, no Quênia, algumas famílias vivem com o equivalente a um copo de água por dia, durante os meses de seca. E o preço da água mineral, nos supermercados, é superior ao dos derivados de petróleo. "O desafio urbano da água está assumindo proporções inomináveis, em especial, em vastas áreas da África", observa Kalyan Ray, coordenador do programa "Água para Cidades Africanas", das Nações Unidas. "A rápida urbanização, o crescimento da população e o desenvolvimento estão tornando ultrapassadas as práticas tradicionais de manejo de recursos hídricos".A taxa de urbanização da África é de 5%, em média, a mais rápida do mundo. Dos 138 milhões de pessoas que viviam em cidades africanas, em 1990, espera-se passar para 500 milhões, até 2020. A extrema escassez no abastecimento de água vivida por 8 países sub-saharianos, em 1990, pode então alcançar 20 países, de um total de 29 países desta região.Como no Brasil, o maior desafio na África é a redução do desperdício. Evaporação nos grandes reservatórios, vazamentos nos sistemas de captação e distribuição, ligações clandestinas, uso irracional são os maiores inimigos dos programas de educação ambiental. Mesmo nos programas internacionais, com o "Água para Cidades Africanas", os progressos são lentos e localizados. Ainda assim, a cidade de Lusaka, na Zâmbia, conseguiu reduzir as perdas de 80 para 45%, no sistema de distribuição. Dacar melhorou o manejo dos recursos hídircos e criou um sistema preventivo contra a poluição no Lago de Guiers, seu principal reservatório. E em Accra, um plano feito pela comunidade local está reduzindo a poluição no rio Densu."Não podemos entrar no Século XXI com a mentalidade tradicional para o manejo da água nas megacidades", afirma Kader Asmal, ex-ministro da Água e atual ministro da Educação da África do Sul. "Nós precisamos de pesquisa e educação para obter eqüidade e eficiência a longo prazo. Nós precisamos de colaboração, nacional e internacional, além de compreender, que alcançar a sustentabilidade dos recursos hídricos é uma questão de segurança para todos nós".

Agencia Estado,

22 de março de 2002 | 22h33

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