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Alzheimer transmitido

Transmissão só ocorre em situações raríssimas, nunca na vida cotidiana

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2018 | 03h00

Em 1955, o Choh Hao Li, endocrinologista chinês que trabalhava em Berkeley (EUA), descobriu o hormônio de crescimento. Ele é produzido pela glândula pituitária, estrutura do tamanho de um grão de milho no centro de nosso cérebro. É um hormônio poderoso, responsável por controlar nosso crescimento. Muitos casos de nanismo são provocados pela ausência desse hormônio. Choh imediatamente entendeu que esse hormônio poderia evitar o nanismo dessas crianças e desenvolveu um método para purificar esse hormônio. 

Para isso, as pituitárias eram retiradas de cadáveres e o hormônio, purificado. Dá para imaginar a dificuldade. Eram necessários muitos cadáveres para obter hormônio suficiente para tratar um paciente. Mas funcionava. No pico de produção, em 1973, cerca de 3 mil crianças eram tratadas com o hormônio e para isso foram usadas pituitárias de 82,5 mil cadáveres. 

O hormônio de crescimento foi um dos primeiros produtos da biotecnologia moderna. Choh colaborou com a empresa Genentech e o gene do hormônio humano foi clonado e colocado em bactérias. Em 1985, o produto comercial foi aprovado e cadáveres deixaram de ser usados. O preço do hormônio despencou. Todo ano mais de 6 mil crianças americanas tomam o hormônio, que hoje é absolutamente puro.

As consequências do uso do hormônio purificado de cadáveres demoraram 40 anos para aparecer. No início do século 21, muitas crianças que tomaram o hormônio começaram a apresentar sintomas de doenças neuronais degenerativas, como Alzheimer e a doença de Creutzfeldt-Jakob. No mundo, já foram registrados mais de 200 casos e na Inglaterra, onde 1.883 crianças foram tratadas de 1958 a 1985 com hormônio de cadáveres, houve 80 casos identificados. Em 2015, a associação entre pessoas que tomaram hormônio e adoeceram foi comprovada e uma possível explicação, proposta.

Entre os anos 2000 e 2015, foi descoberto que algumas doenças degenerativas do sistema nervoso são causadas pelo acúmulo de redes e cabos proteicos entre os neurônios. Essas estruturas contêm duas proteínas: TAU e proteína amiloide. Essas proteínas existem em todos nós, mas quando são desnaturadas, se acumulam no cérebro, formando essas redes e cabos (a desnaturação é o que acontece com as proteínas da clara do ovo quando ele é cozido - elas ficam insolúveis e é por isso que a clara passa de translúcida a branca).

O que foi descoberto é que essas proteínas, quando desnaturadas, provocam a desnaturação das suas vizinhas e, aos poucos, todas as moléculas no cérebro desnaturam e os sintomas da doença aparecem. É um processo que leva dezenas de anos. A hipótese levantada era de que as preparações de hormônio feitas de cadáveres deveriam conter proteína amiloide e TAU de pacientes com Alzheimer, portanto desnaturadas, uma vez que muitos dos cadáveres usados para extrair o hormônio eram de idosos.

Os cientistas propuseram que esse contaminante presente nas preparações de hormônio teria causado o aparecimento da doença. Apesar de muitos cientistas concordarem, outros diziam que isso não passava de uma conjectura. Agora os cientistas provaram que foi exatamente isso que aconteceu. Eles descobriram que diversos frascos das preparações antigas de hormônio haviam sido estocados pelo sistema de saúde britânico, após terem sido retirados das clínicas em 1985. O conteúdo desses frascos foi analisado e foi possível determinar que essas amostras contêm TAU e proteína amiloide, ou seja, que as preparações de hormônio da época não eram puras.

Para determinar se essas preparações de hormônio são capazes de causar o aparecimento de Alzheimer, elas foram injetadas nos camundongos hoje usados para estudar o aparecimento de Alzheimer. O resultado é muito claro: bastam 240 dias para esses animais começarem a apresentar sintomas da doença. Quando esses animais foram sacrificados, foi possível identificar em seus cérebros o aparecimento das redes e cabos típicos da doença.

Isso demonstra que as crianças que tomaram o hormônio e desenvolveram Alzheimer ainda jovens contraíram a doença por meio das injeções de preparados de hormônio contaminados com TAU e proteína amiloide. Significa que a doença de Alzheimer pode ser transmitida de uma pessoa para outra em circunstâncias especiais, onde material do cérebro de um doente é injetado em outra pessoa. É importante lembrar de duas coisas. Primeiro: o hormônio de crescimento usado hoje não provém mais de cadáveres e não tem esses contaminantes. E segundo: a transmissão do Alzheimer só ocorre em situações raríssimas, que nunca ocorrem na vida cotidiana. Não há, portanto, nada com que se preocupar.

Esse resultado mostra bem como é difícil o problema da segurança de medicamentos. Nesse caso, o medicamento problemático foi substituído por uma versão segura antes de se descobrir que ele causava problema. Quando o problema foi descoberto, ele já havia deixado de existir.  MAIS INFORMAÇÕES: TRANSMITION OF AMYLOID-PROTEIN PATHOLOGY FROM CADAVERIC PITUITARY GROWTH HORMONE. NATURE (2018)

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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