GABRIELA BILO/ESTADAO
GABRIELA BILO/ESTADAO
Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Amazônia, pulmão do planeta?

Queime a Amazônia e morrerás asfixiado! Apavorante e poderoso. Uma bela obra de marketing, mas pouco conteúdo de verdade

Fernando Reinach*, colunista

27 de agosto de 2019 | 03h00

Amazônia, pulmão do planeta. É uma analogia poderosa e muito instrutiva, mesmo sendo falsa. Seu poder vem da asfixia, uma das piores formas de morte e uma das poucas em que podemos vivenciar uma prévia do que acontece (tente segurar a respiração por cinco minutos). 

Junte o fato de sabermos que a morte advém  da impossibilidade de nosso corpo colocar para fora o gás carbônico que se acumula em seu interior e colocar para dentro o oxigênio presente na atmosfera. Adicione o fato de plantas, assim como nós, viverem de um fluxo de oxigênio e gás carbônico que entra e sai de suas folhas. 

E o passo final: é na Amazônia que há a maior quantidade de plantas do planeta. Conclusão: a Amazônia é o pulmão do planeta. Queime a Amazônia e morrerás asfixiado! Apavorante e poderoso. Uma bela obra de marketing, mas pouco conteúdo de verdade.

O pulmão é o órgão que faz a troca de gases entre o interior de um ser vivo e seu exterior. Como um ser humano, nosso planeta também tem um interior e um exterior. O interior é a Terra com tudo que está por aqui, a Floresta Amazônica, a atmosfera, o subsolo, os pássaros, os operadores de motosserra e os incêndios. O exterior é o espaço interplanetário. 

No caso da Terra, praticamente não existem coisas, ou gases, que entram ou saem do planeta. Vez por outra cai por aqui um asteroide vindo de fora e o ser humano tem enviado ao espaço algumas toneladas de metal na forma de sondas espaciais, é tudo. A única coisa que chega de fora é a luz solar, e a única coisa que sai é luz refletida e o calor. 

A Terra, ao contrário dos seres vivos, é um sistema praticamente fechado, não troca gases com o exterior e, portanto, não tem algo equivalente a um pulmão. Seria ótimo se tivesse, poderíamos mandar para fora do planeta todos os gases tóxicos que produzimos e trazer para dentro o que necessitamos por aqui, como fazem os seres vivos com seus pulmões. Não seria ótimo?

Mas a analogia é instrutiva. Um dos principais conceitos gerado pela ciência no século 20 é que vivemos em um sistema fechado de tamanho finito, chamado Terra (imagine morar em um apartamento lacrado onde nada entra e nada sai). As besteiras que fizermos por aqui vão ficar por aqui mesmo. Somos o equivalente a um ser vivo sem pulmão, ou um com um saco plástico na cabeça. Temos de lidar internamente com os gases que produzimos e conseguirmos aqui mesmo o que necessitamos.

Tampouco há na Terra algo equivalente aos rins, que expulsam pela urina substâncias tóxicas produzidas pelo corpo ou um intestino grosso, que expulsa do corpo o que não aproveitamos. Se existisse seria ótimo, podíamos colocar nele os restos de Chernobyl e Fukushima. Bastaria puxar a descarga para elas se perderem no espaço interplanetário. 

A Terra tampouco tem boca, e não podemos contar com um órgão desse tipo para trazer até aqui o que necessitamos. Essa é a grande realização do século 20, resultado de centenas de anos de ciência. Estamos no interior de um planeta que já é pequeno para nós e que não tem os órgãos usados pelos seres vivos para mediar seu interior com seu exterior. Isolados, rodeados de espaço interplanetário, virando em volta do Sol.

Nosso planeta pode ser visto como uma enorme máquina de reciclagem. Sobras de um ser vivo são os alimentos dos outros, nada entra, nada sai. E essa máquina de reciclagem, chamado também de ecossistema, vem mudando aos poucos. Quando a vida surgiu no planeta, por volta de 3 bilhões de anos atrás, não existia oxigênio gasoso na atmosfera. Ele foi produzido por seres vivos que retiraram átomos de oxigênio de outras moléculas (ele não veio de fora). Surgiram as plantas, os animais que comiam as plantas, micróbios que degradam animais e assim por diante. 

Muito lentamente essa máquina de reciclagem foi ficando complexa, com suas partes cada vez mais integradas e interdependentes (imagine todas as relações entre os seres vivos em uma floresta). As florestas tropicais são um dos componentes desse sistema de reciclagem. Ao crescer, uma planta consome gás carbônico, produz oxigênio e celulose (um dos principais componentes do seu corpo).

Quando ela atinge a idade adulta (como grande parte das árvores na Floresta Amazônica), ela entra em uma espécie de equilíbrio, produzindo e consumindo quantidades equivalentes de gás carbônico e oxigênio. Assim que morre, toda a celulose de seu corpo é degradada, volta à atmosfera e, em seguida, é novamente transformada em celulose (o que chamamos de ciclo do carbono). 

 

A floresta adulta tem outra função importante: retira água do solo e o joga na atmosfera sob a forma de vapor. Essa água chega em outras regiões na forma de chuvas. É ela, por exemplo, que forma grande parte das chuvas no Cerrado. Foi com essa água que as cinzas chegaram a São Paulo semana passada.

Todo esse sistema funciona de forma integrada, se modificando muito lentamente, ao longo de milhões de anos. O que sabemos é que interferências e mudanças abruptas e rápidas nessa máquina de reciclagem podem ter efeitos catastróficos. Um exemplo conhecido é a queda do asteroide no México. A poeira do impacto tampou o Sol, diminuiu a quantidade de plantas, e terminou por acabar com os dinossauros.

O que os cientistas descobriram é que, nos últimos séculos, o homem se tornou capaz de exercer uma influência tão grande em todo esse sistema de reciclagem que corremos o risco de, por meio de nossas ações, colocarmos areia nas engrenagens dessa maquina de reciclagem ou mesmo destruirmos parte dessa máquina, colocando em risco seu funcionamento. 

Queimar petróleo em grandes quantidades, liberar substâncias tóxicas na atmosfera e nos mares e acabar com a biodiversidade e com as florestas tropicais estão na lista das atividades humanas que os cientistas acreditam que equivalem a retirar algumas engrenagens que mantêm o planeta habitável para nós. No fundo, é por isso que devemos preservar a Amazônia.

Mas qual o pior cenário? O pior cenário é a transformação do planeta em um lugar onde formas de vida como nós e outros mamíferos não conseguem sobreviver. É isso, o fim da nossa espécie. Mas esse talvez esse seja um destino justo para o Homo sapiens, que descobriu como essa enorme máquina de reciclagem funciona, mas foi incapaz de conter sua fúria destruidora.

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

Notícias relacionadas

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.