Amazônia tem duas novas espécies de macaco

Duas novas espécies de macaco da Amazônia brasileira acabam de ser descritas pelos primatologistas Marc van Roosmalen, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), seu filho Tomas van Roosmalen e Russell Mittermeier, presidente da Conservation International (CI) e do Grupo Especialista em Primatas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). A notícia foi divulgada, hoje, em Washington, nos EUA, pela CI e consta de um suplemento especial da publicação científica Neotropical Primates. Com estas duas, o Brasil agora tem 95 espécies de primatas, o que coloca o país em primeiro lugar, em biodiversidade de primatas."Os primatas têm sido bastante estudados nas últimas quatro décadas por serem os parentes mais próximos da espécie humana, mas ainda assim conseguimos ser surpreendidos, mais uma vez, pela descoberta dessas espécies," declarou Mittermeier, em nota à imprensa. "Isso prova que ainda precisamos aprender muito sobre a diversidade biológica, especialmente nas florestas tropicais." /Stephen NashQuadro com a ilustração da espécie Callicebus bernhardi será entregue ao Príncipe Bernhard por ocasião do seu 91o aniversário.As duas espécies são do gênero vulgarmente conhecido como macaco sauá, animais de hábitos diurnos, que vivem nas copas altas das árvores, pesam cerca de 1 a 1,5kg e tem uma longa cauda, que não é prênsil, ou seja, não é utilizada para segurá-los, quando se dependuram. Uma das novas espécies vive entre a margem leste do Rio Madeira e partes mais baixas do Rio Aripuaña, ao sul do Rio Amazonas. Foi batizada com o nome Callicebus bernhardi, em homenagem ao Príncipe Bernhard, dos Países Baixos, responsável pela criação da Ordem da Arca Dourada, prêmio internacional que incentiva ações de conservação da biodiversidade. O Príncipe completa 91 anos no próximo dia 29 de junho e receberá um quadro com uma ilustração colorida do sauá Príncipe Bernhard, das mãos do primatologista Marc van Roosmalen, que é holandês, embora viva em Manaus há muitos anos.O quadro foi desenhado por Stephen Nash, especialista em ilustrações científicas do Departamento de Ciências Anatômicas da Universidade do Estado de Nova Iorque, em Stony Brook, EUA, homenageado com o nome da outra espécie de macaco recém descrita, que passa a se chamar Callicebus stephennashi. Nash trabalha também para a Conservation International e têm contribuído muito para a conservação dos primatas com a produção de materiais educativos.Prioridades de conservação Marc van Roosmalen/DivulgaçãoA espécie Callicebus stephennashi homenageia o ilustrador científico Stephen Nash, dos EUA, responsável pela produção de materiais educativos.Descobrir duas novas espécies de mamíferos - e de primatas, em especial - é considerado um feito extraordinário atualmente, uma vez que a maioria dos ecossistemas já foi esquadrinhado por especialistas de todo tipo. Mas é um fato explicável para quem tem muitos anos de Amazônia, como Anthony Rylands, diretor sênior do Centro de Pesquisas Aplicadas à Biodiversidade (CABS-CI). "Já se andou muito pela Amazônia e quase não há mais lugares onde o homem não tenha estado, mas a questão é estar lá, no lugar certo, alguém que saiba identificar aquela espécie como algo diferente, como uma espécie nova", diz Rylands, em entrevista à Agência Estado. Ele lembra, por exemplo, um sagüi descrito em 1999, em Sergipe: "todo mundo estava cansado de ver aquela espécie ali, mas ninguém tinha se dado conta de que se tratava de uma espécie não descrita". Rylands garante que ainda existem muitas espécies para serem descritas, muitas lacunas de conhecimento, que precisam ser trabalhadas para dar indicações de prioridades de conservação, diante do ritmo acelerado de destruição das florestas. Desde 1990, segundo ele, foram descobertas 24 novas espécies de macacos, 13 das quais no Brasil. E quatro destas - além das duas atuais - foram descritas por Roosmalen e Mittermeier, que têm investido bastante no preenchimento das lacunas de conhecimento. /Stephen NashA descoberta da espécie Callicebus stephennashi deve-se a pescadores do Rio Purus, que levaram o macaco ao primatologista Marc van Roosmalen, em Manaus."Pela distribuição das espécies conhecidas, às vezes sabemos que em uma determinada região existe a possibilidade de haver uma espécie nova, mas ainda é preciso ir até lá e conseguir encontrá-la", continua Rylands. Segundo ele, hoje há mais facilidade, as pessoas estão mais atentas e reconhecem a importância deste tipo de conhecimento. O próprio macaco sauá Stephen Nash chegou ao Centro Van Roosmalen de Reprodução de Animais Silvestres Ameaçados, dirigido por Marc van Roosmalen, em Manaus, pelas maõs de pescadores, vindos, provavelmente, da margem leste do rio Purus, na Amazônia Central. O primatologista tem viajado muito e conversado com pessoas de todas as comunidades por onde passa, divulgando seu interesse nos primatas. E, graças a este esforço, financiado com recursos da CI, já tem outras espécies em processo de descrição, com grandes probabilidades de serem também novas, incluindo um macaco aranha, que é o gênero dos maiores macacos brasileiros. "Estou usando minhas novas descobertas para estimular o governo brasileiro a criar áreas protegidas onde foram encontradas essas espécies e onde, muito provavelmente, vivem outras espécies ainda desconhecidas pela ciência," diz Marc van Roosmalen, também em nota à imprensa. "A Amazônia é extremamente rica em biodiversidade e essas criaturas recém-descobertas deveriam ser consideradas espécies-bandeira."

Agencia Estado,

23 de junho de 2002 | 12h00

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