Ambientalistas comemoram crédito para manejo

A incorporação do setor de manejo florestal certificado ao mercado de crédito foi comemorado por ambientalistas presentes ao seminário Certificação Florestal na Amazônia: Avanços e Oportunidades, que aconteceu hoje, em Belém, no Pará. ?Isso significa trazer o setor para a formalidade, pois ao estabelecer relações com bancos, a empresa precisa ter maior transparência. Não pode mudar de nome e endereço a todo momento, por exemplo?, diz Roberto Smeraldi, da Amigos da Terra.O primeiro empréstimo de um banco público para o setor florestal certificado foi assinado hoje, durante o seminário, para a Juruá Florestal, empresa que conta com o selo FSC desde 2001. O recurso faz parte do Projeto de Apoio ao Desenvolvimento Florestal (Profloresta), criado pelo Banco da Amazônia (Basa) em 2000, mas que, até então, tinha financiado apenas projetos de reflorestamento. ?Estamos mudando a postura do banco em relação ao manejo?, disse Mâncio Lima, presidente do Basa.Segundo Lima, o objetivo do governo federal é transformar o Banco da Amazônia na principal base para o desenvolvimento regional, com apoio a projetos de infra-estrutura, manejo florestal, extrativismo, desenvolvimento industrial e turismo e serviços. ?Estamos desenvolvendo uma nova orientação da política de crédito, que inclua novos sistemas de garantias, prazos de carência e retorno e democratização do crédito. Entre os critérios estão incluídos o desenvolvimento sustentável, tecnologias limpas, certificação e inclusão social?, explica.Nesse sentido, o Basa quer facilitar o crédito para projetos de manejo florestal, incluindo recursos para o processo de certificação. Além disso, o presidente do banco garante que não financiará projetos agropecuários que impliquem em novos desmatamentos na Amazônia. ?Atualmente, temos tecnologia para quintuplicar a produção de gado na região apenas nas áreas já desmatadas. Esse é tipo de projeto para o qual daremos crédito?, diz.Essa postura não é isolada do setor governamental. Segundo Christopher Wells, gerente de Risco Socioambiental do ABN Anro, o Banco Real adotou critérios socioambientais para concessão de créditos no Brasil há um ano, inclusive para o setor madeireiro. ?Entre os setores excluídos pelo banco estão empresas que utilizem trabalho infantil, escravo e promovam a prostituição, além das que trabalhem com amianto ou com extração de madeira nativa sem certificação?, diz.Segundo Wells, ao adotar essa postura, o Real excluiu cinco grandes clientes, incluindo duas madeireiras. ?Só aceitamos clientes do setor madeireiro que tenham certificação, como a do FSC, ou que apresentem evidências críveis de que estão em processo de certificação. Além disso, adotamos em nossas compras o critério de só adquirir madeira certificada e estamos entrando no grupo de Compradores de Madeira Certificada do FSC?. Para o gerente de risco do ABN, ?empresas com problemas sociais e ambientais, normalmente também possuem risco financeiro?. Quem segue as melhores práticas e conta com certificação, no entanto, encontra crédito com facilidade no banco. ?Acabamos de aprovar, em apenas dez dias, um financiamento para a Juruá Florestal?, conta.Segundo Idacir Peracchi, diretor da Juruá, os financiamentos do Basa e do Real serão utilizados em seus dois projetos certificados pelo FSC, em Moju e em Novo Repartimento, no Pará. Os R$ 1,8 milhões do Basa serão utilizados em equipamentos para apoio de extração e atividades pré-exploratórias, como aquisição de tratores para abertura de estradas, carregadeiras e caminhões para o transporte das toras. A linha de crédito do ABN foi de R$ 1,1 milhão e será utilizada na área industrial, para permitir um melhor aproveitamento da floresta, desenvolvendo o aproveitamento de novas espécies e acrescentando tecnologias para secagem, industrialização e desenvolvimento de novos produtos florestais.Esses novos produtos, conforme o diretor industrial da empresa, Sandro Bracchi, são importantes para garantir a utilização de 100% da floresta e a popularização dos produtos certificados. ?Isto é importante porque se em alguns setores a demanda é maior do que podemos entregar, em outros é difícil competir. Pisos de madeira certificada, por exemplo, custam 15% a mais. Por isso, já lançamos cinco espécies novas de madeira para piso. Essas espécies até então eram usadas somente para vigamentos no mercado interno, com valores entre R$ 250 a R$ 300 o m3, e agora chegam a R$ 750 o m3?. Segundo Bracchi, no último ano, a empresa colocou 54 espécies diferentes no mercado e pretende lançar dois novos produtos no próximo ano. Apenas 3% da madeira certificada é comercializada no Brasil. O restante é exportado para países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Japão.

Agencia Estado,

17 de junho de 2003 | 17h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.