Ambientalistas lançam campanha para salvar últimas matas de araucária

A floresta típica do sul do Brasil, caracterizada pela presença da araucária, pode virar história muito em breve. Já sobram menos de 10 fragmentos com mais de 2 mil hectares, no norte de Santa Catarina e sul do Paraná e, mesmo estes, estão sendo desmatados em ritmo acelerado, desde o final de 2002. As derrubadas são uma reação local à publicação das portarias 507 e 508, do Ministério do Meio Ambiente (MMA), propondo estudos para a proteção de 5 áreas no Paraná, totalizando 170 mil hectares, e 3 em Santa Catarina, somando cerca de 40 mil hectares. Na tentativa de salvar estes fragmentos, ambientalistas ligados à Rede de Ongs da Mata Atlântica (RMA) lançaram, hoje, uma campanha de mobilização da opinião pública, com o objetivo de acelerar o processo de criação das unidades de conservação.?Houve um mal entendido em relação ao texto das portarias, que restringia atividades numa faixa de 10 km em torno dos fragmentos florestais?, comenta o pesquisador e ambientalista Paulo Nogueira Neto, membro do Conslho da Fundação SOS Mata Atlântica. ?As portarias restringem apenas atividades danosas à mata, como queimadas e supressão de espécies nativas, mas não impedem o pastejo do gado ou plantio de culturas, como foi entendido pelos produtores?. O mal entendido levou ao desmatamento ou descaracterização dos fragmentos florestais, com a intenção de desestimular a criação das unidades de conservação.Paralelamente, alguns representantes de órgãos ambientais locais vêm autorizando a derrubada de araucárias, apesar da espécie estar protegida por lei desde 1992, conforme denuncia um dossiê divulgado pela RMA. Segundo o documento, muitos assentamentos para fins de reforma agrária vem sendo feitos sobre a floresta. Até 1998, Santa Catarina abrigava 96 assentamentos para fins de reforma agrária, que ocupavam uma área de 70 mil hectares. Somente no município de Abelardo Luz existem 17 assentamentos, a maioria dos quais implantados em áreas originais de Mata de Araucária. Entre 1990 e 1995, Abelardo Luz foi o município campeão em desmatamentos no estado, tendo sido desmatados 4,5 mil hectares. O triste recorde se repetiu no período 1995-2000.Ainda conforme o dossiê, ?muitos produtores com remanescentes em suas propriedades adotam a estratégia de ir ?roendo pelas bordas?, ou seja, anualmente desmatam pequenas faixas na margem externa dos remanescentes. Outros adotam a estratégia de desmatar de ?dentro para fora? dos remanescentes, deixando apenas as bordas?.?Mas há um outro problema, que também preocupa: o plantio de pinus junto à Mata de Araucária?, acrescenta Nogueira Neto. ?O pinus está se tornando uma invasora, na região sul, tanto nos fragmentos florestais remanescentes como nos campos sulinos, que estão desaparecendo?. Os pinus são árvores exóticas, que se reproduzem por sementes dispersas pelo vento, proliferando sozinhas em áreas indesejadas e competindo pela água, luz e nutrientes com as araucárias e outras espécies nativas. Os pinus suprem a indústria de papel e celulose, abrangendo atualmente cerca de 600 mil hectares. Os ambientalistas se mostram especialmente preocupados com os planos do setor, de dobrar a área plantada, alcançando 1,2 milhão de hectares.

Agencia Estado,

17 de setembro de 2003 | 19h41

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