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Amor é sexo com suicídio

Macho de espécie de aranha entrega o corpo para ser devorado de forma voluntária após a cópula

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2016 | 03h00

Que gostoso! Se não passa entre os lábios, essa frase passa pela mente da maioria dos Homo sapiens após o sexo. Mas no mundo animal sexo também pode ser perigoso. Em muitos insetos, o macho tem de fugir para não ser devorado após o sexo, outros oferecem dádivas na tentativa de escapar da morte. Resignados, outros se entregam durante o ato e são devorados antes da retirada do pênis.

São animais em que a decisão de copular pode levar à morte. Mas em um caso específico, da aranha Dolomedes tenebrosus, a vida do parceiro não é tomada pela fêmea agressiva, mas entregue de forma voluntária. Nessa espécie o macho se suicida após o sexo, entregando seu corpo para ser devorado.

Por que esses comportamentos, aparentemente bizarros, foram selecionados ao longo de milhões de anos? Para um darwinista a resposta é que eles devem ser vantajosos, senão teriam sido eliminados. Novos experimentos, feitos com essa aranha suicida, demonstram quão vantajoso pode ser o sacrifício.

Do ponto de vista do macho, a estratégia mais simples para deixar muitos descendentes é copular com o maior número de fêmeas possível, deixando para elas o encargo de criar a prole. Para as fêmeas, a estratégia mais simples é selecionar cuidadosamente o macho e investir na sobrevivência da prole.

Quando a competição entre machos é feroz, copular loucamente nem sempre é possível, e aí a melhor estratégia para garantir que seus genes passem para a próxima geração é ajudar a fêmea a criar os filhotes. Parece familiar? Pois é, mamíferos, aves e humanos oscilam entre essas duas estratégias. Os casos em que os machos são devorados são exemplos extremos da segunda estratégia, em que o macho, para garantir a sobrevivência da prole, transforma o próprio corpo em alimento. Algo não muito diferente dos homens que se matam de trabalhar para sustentar a família. 

Mas como avaliar o benefício reprodutivo desse suicídio? Esse novo experimento é simples e informativo. Aranhas D. tenebrosus foram capturadas e mantidas em cativeiro, alimentadas com seu prato predileto, cadáveres de grilos. Os machos, que têm 10% do tamanho das fêmeas, eram colocados para copular. No fim do ato os machos se matam. Nesse momento, os cientistas intervêm. Em um grupo de casais, o macho morto é simplesmente retirado com uma pinça antes de ser devorado, e a fêmea fertilizada tem de se contentar com o alimento rotineiro. Em um segundo grupo, o macho morto é retirado e substituído por um grilo morto com o mesmo valor nutricional. E, no terceiro grupo, o macho é retirado e colocado de volta para ser devorado. As fêmeas foram acompanhadas até o nascimento da ninhada, e os cientistas mediram o número de aranhinhas que nasceram em cada ninhada, o peso dos recém-nascidos e sua taxa de sobrevivência na ausência de alimentos.

Os resultados mostram que as fêmeas que devoraram o macho geram o dobro do número de filhotes (400 versus 200) que os gerados pelas fêmeas que não comeram os machos ou comeram somente um grilo. O peso desses filhotes também é maior (0,6mg cada versus 0,5mg). Além disso, sua capacidade de começar a vida sem alimentos é maior. Eles sobrevivem 12 dias sem comida, enquanto os outros sobrevivem 8 dias. 

Esses resultados demonstram que fêmeas que devoram o corpo do próprio macho geram mais filhos e filhos mais saudáveis. A ingestão do parceiro produz um efeito maior do que a simples ingestão de grilos, o que sugere que o corpo do macho contém substâncias cujo efeito extrapola seu valor energético. Ainda não se sabe quais são essas substâncias, mas tudo indica que o macho, antes do único ato sexual de sua vida, prepara dois presentes para a fêmea, seus espermatozoides e uma deliciosa e nutriente refeição, tão boa que ajuda seus filhos na primeira infância. Nesses animais sexo e suicídio são gestos de amor paterno.

MAIS INFORMAÇÕES: MALES CAN BENEFIT FROM SEXUAL CANNIBALISM FACILITATED BY SELF-SACRIFICE. CURR. BIOL. VOL. 26 PAG. 1 2016

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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