Universidade de Toquio
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Análise: Descoberta de Nobel pode abrir caminho para cura de doenças

'Graças ao trabalho de Yoshinori Ohsumi, hoje podemos manipular as células para que elas possam usar a autofagia em seu benefício'

Soraya Smaili*, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2016 | 20h20

O professor Yoshinori Ohsumi é um cientista brilhante e seu Prêmio Nobel é, sem dúvida alguma, muito merecido. Embora seja pouco conhecida pelo público e até mesmo por parte dos cientistas, a autofagia é um processo básico natural que ocorre em todas as células. Por ser tão elementar para a biologia das células e seu funcionamento, a autofagia acaba influenciando as células tanto em situação normal, como em situação crítica, ou seja, diante de um estímulo estressor ou agente

infeccioso.

Desde a década de 1970 já se conhecia a existência da autofagia, mas os cientistas não sabiam exatamente para que servia esse processo celular, em que situações era ativado e como era regulado molecularmente. Na mesma época, um outro mecanismo havia sido descoberto e que se chamou de morte celular programada - ou apoptose - que permite eliminação de células mal formadas. Acreditou-se na ocasião que a autofagia era também um tipo de morte celular.

Os estudos do Dr. Ohsumi foram extremamente importantes para mostrar que a autofagia era um mecanismo muito complexo e que nem sempre estava envolvido com a morte celular. Ele descobriu que a autofagia era uma fenômeno regulável ao descobrir os genes que codificam as proteínas que podem controlar esse processo, promovendo aumento ou diminuição da autofagia.

Sabe-se hoje que a autofagia é um importante processo de "manutenção celular", pois atua eliminando os componentes danificados que podem levar à morte da célula. Sendo assim, pode promover a proteção e prolongar a vida, se o estímulo agressor não for muito intenso. Hoje sabemos que a autofagia pode prolongar e proteger as células, pois ajuda a "limpar" os elementos defeituosos.

No entanto, dependendo da situação, a autofagia pode postergar ou acelerar a morte celular. Sendo assim, ela é importante para eliminar células mal formadas, mas também pode perpetuar a vida de uma célula que não deveria ser protegida, como uma célula tumoral. Em casos de câncer, a autofagia pode ser um dos mecanismos mais importantes na resistência tumoral e também na metástase, já que pode prolongar e proteger a vida e a reprodução de células tumorais. Assim, a inibição da autofagia em tumores, pode ajudar no tratamento quimioterápico.

Por outro lado, quando se consegue controlar a autofagia em células normais, ela pode prolongar a vida de células importantes como os neurônios. Alguns grupos de pesquisa, como o nosso, têm mostrado que em doenças neurodegenerativas, como o Parkinson, o aumento da autofagia pode proteger as células neuronais e inibir os efeitos da doença.

A grande descoberta de Ohsumi é a identificação dos genes envolvidos com a autofagia. Antes de seus experimentos, não se sabia como o processo era ativado, nem como era controlado. Graças ao seu trabalho, hoje podemos manipular as células para que ela possa usar a autofagia em seu benefício.

Sabendo controlar a autofagia, podemos estimulá-la para aumentar a proteção das células - o que abre caminho para retardar doenças como o mal de Parkinson, por exemplo, que é causado por acúmulo de proteínas defeituosas nas células. Depois dessas descobertas, cientistas já mostraram em inúmeros estudos que a autofagia pode proteger os neurônios e beneficiar os indivíduos com doenças neurodegenerativas como o próprio Parkinson ou a doença de Alzheimer.

Uma nova vertente de estudos com autofagia, procura verificar se o aumento da autofagia poderia proteger células normais e aumentarem a sua sobrevida, o que seria um importante mecanismo para a promoção da longevidade. Esse é um assunto ainda em estudos e que merece especial atenção dos pesquisadores. 

* Soraya Smaili é reitora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especialista em neurociências e morte celular

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