Apicultura orgânica é viável em áreas agrícolas

J. J. Leister/AE 7/6/2000 Colméias em produção: para transformar a atividade é fundamental que abelhas só coletem mel em áreas silvestres ou em lavouras cultivadas organicamente A produção de mel a partir de floradas silvestres é uma prática cada vez mais escassa. Por isso, a exploração da apicultura tem dependido de culturas agrícolas que, em muitos sistemas produtivos, recebem produtos agroquímicos de forma inadequada. Isso prejudica a qualidade do mel e dos produtos apícolas e chega a matar as abelhas. Na tentativa de mudar essa realidade, pesquisadores e apicultores têm debatido a possibilidade de transformar sistemas convencionais de apicultura em sistemas orgânicos. ?Para isso, a produção deve ser inspecionada e certificada por entidades reconhecidas pelo mercado ao qual se destina a produção, seja ele interno ou externo?, diz o pesquisador Vanderlei Doniseti Acassio dos Reis, responsável pelos trabalhos na área de apicultura da Embrapa Pantanal, em Corumbá (MS). ?O mercado externo pode ser uma boa opção para o apicultor. Com mel orgânico ele atenderá a uma demanda crescente e comercializará produtos com valor agregado maior.? Uma das principais exigências feitas pelas empresas certificadoras aos apicultores, para fornecer a certificação e um selo para o produto orgânico, é a garantia de uma distância mínima de 3 quilômetros entre os apiários orgânicos e as áreas de agricultura convencional. ?Isso porque as abelhas coletam alimentos num raio de até 2 quilômetros de suas colônias.? Exigências ? A florada na qual a abelha trabalha deve estar em áreas nativas ou de agricultura orgânica. Durante o transporte das colméias, devem ser evitadas regiões de agricultura convencional. Qualquer material metálico que entre em contato com os produtos apícolas precisa ser de aço inoxidável. As embalagens para comercialização devem ser de vidro. As legislações trabalhista e ambiental devem ser respeitadas. Segundo Reis, o País tem grandes extensões nas quais é possível investir na apicultura orgânica. O Pantanal, que tem na pecuária extensiva sua principal atividade econômica, é uma região com ótimas possibilidades para a apicultura orgânica. ?Nossa agricultura é de subsistência e possuímos uma flora silvestre bastante diversificada?, diz o pesquisador. Ele afirma que o Nordeste também tem se destacado nesse ramo. Em alguns Estados da região é possível até ingressar diretamente na apicultura orgânica, sem necessariamente ter de converter a atividade. Em busca de conseguir o selo do Instituto Biodinâmico (maior certificador de produtos orgânicos do País), os produtores de mel ligados à empresa Cearapi, de Crato (CE), a 550 quilômetros de Fortaleza, estão se ajustando a essas e outras exigências. A Cearapi congrega 180 apicultores, donos de 30 mil colméias, no Ceará, Piauí, Bahia, Pernambuco, Maranhão, Alagoas, Rio Grande do Norte e Paraíba. Produzem mel orgânico ou estão convertendo seus sistemas. Um dos sócios da Cearapi, o paulistano Paulo Levy, trabalha desde jovem com apicultura. Quando tinha 18 anos e completou o colegial, viajou para a Itália e lá, em 1981, trabalhou na Apicultora Porrini, a maior empresa de apicultura italiana, naquela época. No mesmo ano, foi para a Suíça, trabalhou com apicultores da empresa Bosia, e se profissionalizou. Ao regressar, fez Zootecnia na USP e direcionou o curso para a apicultura. Terminou o curso, foi para Campos do Jordão (SP) e, em 90, lançou a marca Api-Levy. Hoje, aos 40 anos, o produtor mora em Crato. Chegou ao sertão cearense em 1998. ?Em 1995 começou a entrar muito mel importado no mercado brasileiro. A Argentina era o segundo exportador mundial e mandava o refugo da produção para o Brasil a preços baixos?, conta Levy. ?Mas eu não queria baixar a qualidade do meu mel.? Em 1997, durante um congresso de apicultura na Bélgica, encontrou o proprietário da Bosia, empresa para a qual trabalhou. ?Era a maior produtora suíça. Propus a ele uma sociedade para produzir mel orgânico no Brasil.? Segundo ele, o País tinha a vantagem de trabalhar com abelhas africanizadas, enquanto no México, EUA, Canadá, Europa, Ásia, Austrália, Argentina, Chile e Uruguai utilizavam abelhas européias, sensíveis ao Varroa jacobsoni ou Varroa destructor, ácaro que suga o ?sangue? da abelha desde a fase de larva até a adulta e prejudica a capacidade produtiva da colônia. ?As abelhas africanizadas são tolerantes a essa praga e também à cria pútrida americana, doença causada pelo Bacillus larvae, que destrói colméias enfraquecidas?, diz Levy. Nordeste ? Em 1998, o apicultor procurou regiões aptas à produção de mel orgânico, em áreas de floradas nativas. ?Acabei no Ceará.? No ano passado, a Cearapi exportou 1.010 toneladas de mel. ?Todo esse volume é, na essência, orgânico, mas apenas 30% é certificado. O resto ainda é exportado como mel convencional?, diz Levy. A empresa exportou no ano passado o quilo do mel orgânico por US$ 3,00. O mel não-certificado chegou a US$ 2,50/quilo. No mercado interno, o mel convencional está cotado em US$ 2,00 o quilo. O consumo de mel no Brasil ainda é baixo. De acordo com dados do Congresso Brasileiro de Apicultura, realizado no ano passado em Campo Grande (MS), a média é de 60 gramas/habitante/ano. No Sul, o consumo é maior, variando de 200 a 300 gramas/habitante/ano. Na Suíça, cada habitante consome, em média, 1,5 quilo de mel/ano. Na Alemanha, são 960 gramas e, nos EUA, 910 gramas/habitante/ano. No País, até 2002, havia cerca de 300 mil apicultores, com produção de 30 mil a 40 mil toneladas de mel por ano e produtividade de 15 quilos/colméia. ?A maioria do mel consumido no Brasil já tem características de mel orgânico. Para ser classificado como tal, falta, porém, atender às exigências de mercados externos e das certificadoras?, afirma Reis. Atualmente, o Brasil possui cerca de 20 certificadoras. A Portaria n.º 367, de 4/9/1997, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) descreve as normas de produção, tipificação, processamento, envase, distribuição, identificação e certificação da qualidade para o mel. A Instrução Normativa n.º 007, de 17/5/1999, também do Mapa, regulamenta o setor de produtos orgânicos, exigindo detalhamento das etapas de conversão e transição dos produtos convencionais para os orgânicos; certificação feita por entidades nacionais sem fins lucrativos; criação de um órgão colegiado nacional para a fiscalização dessas certificadoras e exclusão do emprego de organismos geneticamente modificados na produção orgânica. No site do IBD (www.ibd.com.br) é possível encontrar as diretrizes para conversão e certificação de apiários e produtos apícolas. A Cearapi se interessa em bancar os custos de conversão de sistemas de apicultura convencional para a orgânica. ?Se houver um grupo com pelo menos mil colméias estamos interessados em negociar. Se forem produtores pequenos e isolados, sugiro que se unam, pois o processo de certificação não sai por menos de R$ 5 mil por produtor?, diz Paulo Levy.

Agencia Estado,

30 de julho de 2003 | 09h35

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