LUCAS LENCI / GETTY IMAGES
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Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 03h00

Quando era presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), no fim dos anos 1990, Luiz Antonio Barreto de Castro costumava dizer aos críticos da soja transgênica que o abordavam em audiências públicas e nas reuniões do colegiado em Brasília: “Está aqui meu RG; se alguém passar mal comendo essa soja, eu quero ser preso”, conta o pesquisador, um dos pioneiros da biotecnologia no Brasil. “Estou solto até hoje.”

A soja transgênica Roundup Ready (RR), da Monsanto, foi aprovada por unanimidade pela CTNBio em setembro de 1998, sob fortes críticas de entidades ambientalistas e de defesa do consumidor. Vinte anos depois, as polêmicas que cercam os alimentos geneticamente modificados persistem em parte na opinião pública, mas não no campo. Quase 100% da produção brasileira de soja, milho e algodão agora é transgênica, com 53 milhões de hectares plantados – uma área equivalente a duas vezes o Estado de São Paulo.

A taxa de adoção da tecnologia chegou a 92% para a soja, 87% para o milho e 94% para o algodão, o que rendeu aos produtores um lucro acumulado no período de R$ 35,8 bilhões, associado principalmente à redução de gastos e ao aumento de produtividade proporcionados pelos transgênicos. Os dados são de um levantamento inédito da consultoria Agroconsult, ao qual o Estado teve acesso com exclusividade. 

Considerando os benefícios dos transgênicos para a economia brasileira como um todo – incluindo na conta, por exemplo, efeitos indiretos como o aumento no comércio de máquinas e insumos agrícolas, impulsionado pela adoção da tecnologia no campo –, o ganho coletivo é ainda maior: R$ 45,3 bilhões.

“Os ganhos com a tecnologia extrapolam a fazenda e acabam beneficiando toda a economia”, diz a coordenadora do estudo e sócio-analista da Agroconsult, Débora Simões.

Outro benefício é a redução no uso de defensivos agrícolas, que é uma das principais vantagens estratégicas da tecnologia. Segundo o estudo, o uso de sementes geneticamente modificadas evitou que 839 mil toneladas de herbicidas e inseticidas fossem aplicadas sobre as lavouras brasileiras dessas três culturas nos últimos 20 anos.

Quase todos os transgênicos aprovados até agora para uso agrícola no Brasil – 76 produtos no total – são plantas geneticamente modificadas para serem resistentes a herbicidas e/ou insetos (veja infográfico abaixo). O objetivo, com isso, é facilitar o manejo e melhorar o controle de pragas nas lavouras, o que acaba beneficiando também a produtividade – ainda que os genes propriamente ditos não confiram nenhuma vantagem genética nesse sentido.

Segundo o estudo, os transgênicos foram responsáveis por um incremento de 55,4 milhões de toneladas na produção brasileira de grãos desde 1998. “O produtor não vai pagar mais por uma tecnologia que não lhe traz benefício”, diz Adriana Brondani, presidente do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB), entidade que encomendou o estudo. Os agricultores pagam royalties às empresas para usar as sementes transgênicas, mas os ganhos obtidos com a tecnologia acabam compensando o investimento, segundo a pesquisa.

“Foi uma revolução na agricultura brasileira”, diz o produtor Almir Rebello, presidente do Clube Amigos da Terra em Tupanciretã, interior do Rio Grande do Sul – região em que a soja transgênica começou a ser plantada no País, antes mesmo de 1998, usando sementes trazidas ilegalmente da Argentina (onde a soja RR já estava legalizada havia dois anos). “A facilitação do manejo foi algo impressionante”, afirma Rebello.

Com a soja transgênica, em vez de vários herbicidas (cada um deles específico para um tipo de erva daninha), os agricultores passaram a usar apenas o glifosato (que mata todas as plantas, menos a soja transgênica), aplicado sobre toda a lavoura, antes e depois do plantio. Além da facilidade, isso permitiu a implementação da técnica de plantio direto — quando as sementes são plantadas diretamente sob a palha que resta da safra anterior, sem necessidade de arar ou gradear o solo —, o que também reduziu os problemas de erosão e emissão de gases-estufa.

“Antes, para cada uma tonelada de soja produzida a gente perdia 20 toneladas de solo por ano. Era um desastre; estávamos caminhando para um deserto”, conta Rebello. “Agora, não. Esse casamento da biotecnologia com o plantio direto foi extraordinário.”

Biossegurança

Globalmente, os transgênicos estão presentes em 24 países, com uma área plantada total de aproximadamente 190 milhões de hectares (do tamanho do México), segundo o último relatório do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações de Agrobiotecnologia (ISAAA). O Brasil é o segundo país com maior área cultivada, atrás dos Estados Unidos à frente da Argentina.

Tudo isso, sem nenhum registro de malefício à saúde humana ou ao meio ambiente, segundo vários especialistas ouvidos pelo Estado. “No mundo inteiro os transgênicos só trouxeram benefícios”, diz Barreto de Castro, pesquisador aposentado e ex-chefe da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília. Ele foi o primeiro presidente da CTNBio, órgão responsável por regulamentar a avaliar a biossegurança de transgênicos no Brasil, criado em 1995.

“Até o momento, não existem evidências concretas de que estes produtos possam causar malefício aos seres humanos, animais, vegetais ou ao meio ambiente”, diz a atual presidente da CTNBio e professora da Universidade Católica de Brasília, Maria Sueli Felipe. “O processo de análise da biossegurança de organismos geneticamente modificados é rigoroso e absolutamente transparente.”

O principal desafio no campo é o manejo das pragas resistentes, que surgem com o uso contínuo de qualquer pesticida — um desafio que, segundo especialistas, não é exclusivo dos transgênicos, mas é potencializado pelo modelo de produção ao qual eles estão associados, que envolve grandes áreas de monocultura tratadas com um mesmo produto por longos períodos.

No caso do milho ou algodão transgênicos resistentes a lagartas, a orientação é para os produtores sempre plantarem uma parte da sua área com variedades não transgênicas (chamada área de refúgio) e aplicação de inseticidas convencionais, para reduzir a população de insetos resistentes. Mas isso nem sempre é feito, por diversas razões — entre elas, a complicação do manejo e a dificuldade de encontrar sementes convencionais da mesma variedade e qualidade das transgênicas.

No caso da soja resistente ao glifosato, há poucas alternativas, como fazer rotação de culturas e usar outros produtos para eliminar as ervas daninhas resistentes – tomando o cuidado de não prejudicar a soja. As empresas de biotecnologia, por sua vez, investem no desenvolvimento de plantas resistentes a outros herbicidas. Já há variedades de soja resistentes a dois e até três produtos, além de resistência a insetos; tudo numa mesma planta. 

“Soluções existem, mas não é algo trivial, que você vai na prateleira e compra. É algo que exige planejamento”, diz o coordenador de Tecnologia e Inovação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Reginaldo Minaré.

Em 2015, a Embrapa chegou a anunciar o lançamento comercial de uma soja transgênica tolerante a outra classe de herbicidas, conhecidos como imidazolinonas, que seria uma alternativa ao glifosato. Mas o produto, chamado Cultivance e desenvolvido em parceria com a empresa química alemã Basf, nunca chegou de fato ao mercado. 

“Em acordo com a Basf entendemos por bem suspender o lançamento da Cultivance”, disse ao Estado o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Celso Moretti. “Achamos que não era o momento adequado”, completou ele, citando questões de competitividade do produto no mercado.

Insegurança

Entidades que já questionavam a segurança dos transgênicos na década de 1990, porém, continuam céticas com relação à tecnologia. “É tudo ainda muito obscuro”, diz a nutricionista Ana Paula Bortoletto, pesquisadora em alimentos no Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), em São Paulo. “Há muitos interesses comerciais se sobrepondo aos reais fatores de segurança.”

“Nossa posição se mantém; somos contrários à maneira como esse tema é tratado no Brasil”, diz Marina Lacôrte, especialista do Greenpeace em Agricultura e Alimentação. Segundo ela, há muitos conflitos de interesse envolvidos — inclusive nas decisões da CTNBio —, e as autorizações são dadas “sem a devida responsabilidade”. “A CTNBio não produz ciência, apenas avalia estudos produzidos pelos próprios interessados na liberação dos produtos”, diz.

Rubens Nodari, pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina, diz que o uso de agrotóxicos aumentou no País nos últimos 20 anos, e que os transgênicos reduziram a diversidade genética de plantas no campo, acentuando um modelo de produção baseado em monoculturas de larga escala, que aumenta a vulnerabilidade das lavouras. “A manutenção da diversidade genética é crucial”, diz.

“Em vez de tentar se livrar das pragas e doenças, deveríamos tentar conviver com elas de uma maneira que seja economicamente viável.”

Segundo ele, os transgênicos “não entregaram tudo o que prometeram”, e continuam limitados em grande escala a apenas duas características: resistência a herbicidas e a alguns insetos.

Com relação a possíveis impactos na saúde, críticos ainda dizem que não é possível ter certeza da segurança, por não haver um monitoramento sistemático dos produtos. “Ausência de evidências não é evidência de ausências”, diz a representante do Greenpeace.

“Vida de transgênico não é fácil”, diz Barreto de Castro. “A biotecnologia sempre foi uma coisa perseguida; e isso até hoje não foi resolvido. Mesmo sem nenhuma evidência na mão, continuam fazendo campanha contra. Acho que vai ser eternamente assim.”

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Novas técnicas prometem ampliar ‘cardápio’ de alimentos transgênicos

Com entrada em campo de métodos de edição genética, as regras do jogo sobre os transgênicos começam a mudar nos laboratórios

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 03h00

Soja, milho e algodão. A receita transgênica é basicamente a mesma há duas décadas; com algumas variações regionais – uma alfafa aqui, uma canola acolá –, mas nada muito além disso, fora do mundo das commodities. Novas tecnologias, porém, prometem ampliar o cardápio de plantas geneticamente modificadas disponíveis para o consumidor nos próximos anos.

Todos os transgênicos colocados no mercado até agora foram desenvolvidos pela técnica de DNA recombinante, na qual genes de uma espécie são transferidos para outra em laboratório, usando diversas ferramentas de engenharia genética. É uma tecnologia eficiente, mas trabalhosa, que exige a geração de milhares de plantas experimentais (chamadas eventos) para se chegar ao produto desejado.

Some a isso o peso de uma regulamentação rigorosa, e o resultado são anos de pesquisa e milhões de dólares em investimento, que só grandes empresas costumam ter fôlego para encarar. Por isso o mercado global de transgênicos é dominado por um pequeno grupo de multinacionais: Monsanto (recentemente comprada pela Bayer), Syngenta, Basf e DownDuPont.

Com a entrada em campo das novas técnicas de edição genética, as regras do jogo começam a mudar. Coletivamente chamadas de Técnicas Inovadoras de Melhoramento de Precisão (Timps), elas permitem fazer modificações pontuais no genoma de um organismo, com o objetivo de desligar, diminuir ou aumentar alguma característica genética dele. 

“Achamos que é uma ferramenta que vai redemocratizar a biotecnologia a nível mundial”, diz Celso Moretti, diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

A mais promissora das Timps é a técnica conhecida como crisper (ou sistema Crispr-Cas, na sigla técnica em inglês), aprimorada ao longo dos últimos cinco anos, que utiliza uma classe especial de enzimas para alterar, inserir ou apagar informações em pontos específicos do genoma – funcionando como um editor de textos molecular.

Tecnicamente, o crisper é consideravelmente mais simples, rápido e preciso do que as técnicas de DNA recombinante convencionais. E, como a modificação é feita no genoma da própria planta – sem a necessidade de transferir genes de uma espécie para outra –, a expectativa é de que as variedades criadas por essas novas metodologias não sejam classificadas como “transgênicas” e, portanto, não precisem passar por todos os testes e processos regulatórios que regem o desenvolvimento e a comercialização desses produtos.

“Isso coloca de volta no jogo uma série de atores que vinham atuando como coadjuvantes, mas poderão se tornar protagonistas”, afirma Moretti. Entre eles, a própria Embrapa. A empresa lançou em julho um edital de R$ 10 milhões, para estimular cientistas da casa a trabalhar com crisper e outras técnicas de edição genética. 

“Não vamos mais precisar de tanto tempo e tanto investimento para desenvolver novos produtos”, diz o pesquisador Elibio Rech, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, um pioneiro da transgenia no Brasil e entusiasta das Timps. “Certamente vai contribuir para aumentarmos a diversidade de organismos geneticamente modificados no mercado.”

“Nessa primeira fase dos transgênicos, os genes introduzidos nas plantas não trouxeram nenhum benefício direto para o consumidor”, diz o pesquisador Gonçalo Pereira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foram, basicamente, genes de resistência a insetos e tolerância a herbicidas — características que beneficiam o produtor rural, facilitando o manejo e proporcionando um melhor controle de pragas nas lavouras.

“A partir de agora, a expectativa é que você comece a modificar, de forma planejada, outras características das plantas que vão beneficiar diretamente o consumidor.” Por exemplo, características nutricionais ou que aumentem a durabilidade dos alimentos.

“Está na hora de buscarmos nossas próprias soluções”, afirma Pereira, ressaltando a importância de o Brasil não ficar para trás no uso dessas novas tecnologias. “Temos conhecimento e temos ciência para isso.”

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O cardápio de transgênicos hoje é pequeno, segundos os pesquisadores, nem tanto por uma dificuldade técnica, mas principalmente porque o custo para se fazer todos os testes e obter todas as licenças para colocar um produto no mercado é alto demais. 

Das 76 plantas transgênicas aprovadas pela CTNBio em 20 anos, só quatro foram desenvolvidas no Brasil: um feijão resistente a vírus (da Embrapa), uma soja tolerante a herbicidas (da Embrapa/Basf), uma cana-de-açúcar resistente a lagartas (do Centro de Tecnologia Canavieira - CTC) e um eucalipto geneticamente modificado para crescer mais rápido e produzir mais madeira (da Suzano/FuturaGene).

“As dificuldades que existem hoje para liberar um produto transgênico são muito grandes”, diz Luiz Antonio Barreto de Castro, pesquisador aposentado da Embrapa e ex-presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Ele defende uma modernização da Lei Nacional de Biossegurança — que ele mesmo ajudou a criar, em 2005 —, no sentido de torná-la mais compatível com o conhecimento científico e as ferramentas tecnológicas atuais.

“Se o sistema fosse mais realista e valorizasse a ciência brasileira, não há a menor dúvida de que já teríamos feito muito mais”, diz o biólogo Paulo Arruda, da Unicamp, especialista em genômica e biotecnologia. 

Ele ressalta a importância de não repetir a história agora, com as técnicas de edição genética. “É um tecnologia infinitamente mais simples do que a transgenia”, diz. “Se não colocarmos barreiras regulatórias desnecessárias, é algo que vai explodir. Por outro lado, se usarmos o mesmo modelo atual, vai acontecer a mesma coisa: será um mercado dominado pelas grandes empresas.”

Regulamentação

Em julho, o Tribunal de Justiça da União Europeia decidiu que plantas com características geradas por edição genética são equivalentes a transgênicos e, portanto, devem ser regulamentadas como tal. Pesquisadores de diversos países, inclusive da própria Europa, disseram que a decisão carece de lógica científica. “Não faz sentido dizer que mudanças genéticas pontuais, que acontecem aos montes na natureza, são o mesmo que transgenia”, diz Arruda.

No Brasil, a CTNBio decidiu em janeiro que produtos gerados por Timps devem passar por uma consulta à comissão, que decidirá, em uma análise caso a caso, se eles se encaixam na definição legal de transgênicos do País. “Cada produto poderá ser considerado transgênico ou não, dependendo das suas características”, diz a bioquímica Maria Sueli Felipe, presidente da CTNBio e professora da Universidade Católica de Brasília.

A primeira decisão com base nessa resolução foi dada em junho. A CTNBio concluiu que duas leveduras da empresa GlobalYeast, geneticamente modificadas para melhorar a produção de bioetanol, não eram organismos transgênicos. “Acredito que vamos receber muitas consultas desse tipo daqui para a frente”, afirma Sueli.

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