Aprender a perseverar

Experimento demonstra que, com 1 ano, crianças já estão prontas para o aprendizado da perseverança

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2017 | 03h00

Com 1 ano, crianças já estão prontas para aprender a perseverar. E isso foi demonstrado em um experimento simples. Perseverar, continuar tentando apesar da dificuldade, é uma das habilidades que melhor prevê o sucesso futuro de um jovem. Talento ajuda, mas é a perseverança que salva o dia. Muitos acham que ensinar uma criança a viver dificuldades como oportunidades de aprendizado é uma tarefa árdua, e a tendência natural das pessoas é desistir diante da frustração. O mérito desse experimento é mostrar que isso não é verdade.

O experimento foi feito com 262 crianças de 1 ano de idade. Elas foram divididas em três grupos. No primeiro, um pesquisador entrava na sala, conversava com a criança, e sacudia uma caixa dizendo que dentro estava um brinquedo, que desejava tirar da caixa. Aí o pesquisador ficava tentando abrir de diversas maneiras sem conseguir, até que, depois de 30 segundos, conseguia abrir a caixa. Em seguida, mostrava um segundo brinquedo, novamente uma caixa, mas que deveria ser aberta com uma chave. Novamente o pesquisador tentava abrir de diversas maneiras só tendo sucesso após 30 segundos. Finalmente o pesquisador mostrava uma terceira caixa com um botão e dizia para a criança que essa caixa tocava música. O pesquisador entregava para a criança e deixava a sala, voltando dois minutos depois. O comportamento da criança durante esses dois minutos era filmado. 

No segundo grupo tudo era feito exatamente igual, mas o pesquisador conseguia abrir as duas caixas rapidamente, sem dificuldade, e nos mesmos 30 segundos mostrava para a criança por três vezes como abrir cada caixa. Depois, a terceira caixa era mostrada e entregue da mesma maneira. No grupo controle, o pesquisador entrava na sala, mostrava a caixa de música e entregava à criança.

A ideia é que no primeiro grupo a criança observa a dificuldade e a insistência do pesquisador em executar a tarefa. No segundo grupo a ideia é que a criança observe três vezes como é fácil para o pesquisador abrir a caixa, antes de ser desafiada. E no terceiro grupo a criança não via nada antes de ser desafiada. É importante notar que a tarefa da criança (apertar o botão) não tem relação como o que era feito pelo pesquisador (abrir as caixas).

O que a criança não sabia é que o botão havia sido desativado e, por mais que apertasse, a caixa não tocava música. Analisando a filmagem, os pesquisadores contaram quantas vezes a criança tentava apertar o botão, antes de desistir e jogar a caixa no chão. 

O resultado é o seguinte. As crianças que haviam observado a dificuldade do pesquisador em abrir a caixa tentavam apertar o botão 22,5 vezes antes de desistir. Já as crianças que haviam observado o cientista abrir a caixa por três vezes sem demonstrar nenhuma dificuldade tentavam apertar o botão em média 12 vezes e desistiam. O número de tentativas das crianças do grupo controle, que tinham recebido a caixa sem ver nada antes, foi de 11 vezes.

Esse resultado demonstra que crianças de 1 ano de idade, quando observam atitudes de perseverança nos adultos, se tornam mais perseverantes e resistentes à frustração. 

Isso significa que crianças que têm contato com as frustrações dos adultos aprendem a serem mais perseverantes. Assim, se você aparenta para seu filho que nada para você é difícil ou desafiador, está perdendo uma oportunidade de educar. Mas o mais preocupante é que na sociedade moderna as crianças não têm muitas chances de observar as atividades desafiadoras executadas pelos adultos (no trabalho e na vida cotidiana) e a interação da criança com o adulto ocorre em contextos em que os adultos não têm dificuldades (na escola e com os pais após o trabalho) e, portanto, não proporcionam essa oportunidade. 

Imagino que nas sociedades primitivas, em que a criança acompanhava os pais o tempo todo, as oportunidades de aprender com as frustrações cotidianas dos adultos eram muito maiores. Foi nesse ambiente que nosso cérebro evoluiu e provavelmente é por isso que somos capazes, tão cedo, de aprender a ser perseverantes com frustrações dos pais.

MAIS INFORMAÇÕES: INFANTS MAKE MORE ATTEMPTS TO ARCHIEVE A GOAL WHEN THEY SEE ADULTS PERSIST. SCIENCE, VOL. 357, PÁG. 1.290. (2017)

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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