Aquecimento corporal

Se você é paulistano, como eu, teve de encarar algumas noites geladas recentemente. (Se não é, continue lendo assim mesmo que vai valer a pena).   Encolhendo-me sob as cobertas recentemente para escapar do frio, pensei em duas coisas: 1) que diabo de frio inconveniente é esse em pleno final de setembro?, e 2) de onde vem o calor debaixo do cobertor?   Não sei se já parou para pensar nisso, mas o seu cobertor não produz nenhum calor por conta própria. A cama só fica quente depois que você entra debaixo dele! Um edredom jogado no chão, sozinho, não oferece calor nenhum.   O mesmo vale para blusas, jaquetas, luvas, gorros e outros acessórios de aquecimento. Um bom casaco de inverno não é aquele que produz mais calor, mas aquele que melhor impede o calor produzido pelo seu próprio corpo de escapar para o ambiente. Uma roupa só fica quente mesmo quando é vestida.   Enfim, o que eu estou querendo dizer é que o calor está dentro de você, e não no cobertor ou na jaqueta. Nós, felizmente, somos animais de "sangue quente" e contamos com um mecanismo interno biológico de controle chamado homeostase, que mantém nossos corpos em condições sempre estáveis de temperatura e pressão - como se fosse o termostato de um aquecedor.   Faça chuva ou faça sol, a temperatura do nosso corpo em condições saudáveis é sempre mantida na faixa dos 37 graus Celsius. Diferentemente dos animais de "sangue frio", como os crocodilos e lagartos, que precisam ficar tomando sol o dia inteiro para aquecer seus corpos.   Mas de onde vem esse nosso calor humano? Você pode pensar no seu organismo como uma máquina - ou melhor, um carro -, que funciona a base de um combustível chamado comida. Da mesma forma que o motor do seu carro esquenta quando queima gasolina, o seu corpo esquenta quando "queima comida". O calor, portanto, é resultado do metabolismo - um subproduto da respiração celular, que é a transformação da energia contida nos alimentos em energia que pode ser utilizada pelo corpo na forma da ATP (a molécula energética das células). Daí a expressão "queimar calorias" - algo que você faz automaticamente para sobreviver, e não só para emagrecer.   É por isso que os ursos sempre se empanturram de comida antes de hibernar: estão acumulando combustível (principalmente na forma de gordura) para alimentar a fornalha metabólica durante sua longa soneca de inverno. É por isso também que pessoas de estômago vazio sentem mais frio do que pessoas bem alimentadas - está faltando lenha na fogueira! E é por isso que a gente fica gelado quando morre - a máquina parou de funcionar e, portanto, de produzir calor.   Mas é claro que a homeostase tem limites. Quando sentimos frio, é porque a temperatura ambiente está tão fria que nosso corpo não está mais conseguindo compensar a diferença. Ou, quando sentimos calor, é porque o ambiente está tão quente que nosso corpo precisa se esforçar para manter sua temperatura interior estável. De um jeito ou de outro, se ficar frio demais ou quente demais, o sistema não agüenta e a pessoa pode até morrer.   Vestir um "casaco quente", por fim, é apenas uma maneira de aprisionar essa calor corporal e isolar nossa pele do ambiente externo. Pense nisso a próxima vez que se embrulhar num cobertor. Cada um de nós é um pequeno Tocha Humana - ainda que não sejamos capazes de voar ou soltar bolas de fogo como o super-herói dos quadrinhos.

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