Mark Urban
Mark Urban

Aquecimento global poderá extinguir uma em cada seis espécies

Estudo da 'Science' prevê que, no ritmo atual de emissões de carbono, mudança climática poderá acabar com 16% das espécies no mundo, chegando a 23% na América do Sul

FÁBIO DE CASTRO, O ESTADO DE S. PAULO

30 Abril 2015 | 19h46

Os efeitos das mudanças climáticas poderão causar a extinção de uma em cada seis espécies de animais do planeta, caso as emissões de carbono se mantenham na trajetória atual. A conclusão é de um novo estudo publicado nesta quinta-feira, 30, na revista Science. Na média global, segundo a pesquisa, a subida das temperaturas no ritmo atual poderá levar à extinção de 16% das espécies. Mas na análise por região, a pior situação foi verificada na América do Sul: o aquecimento poderá acabar com 23% das espécies. O trabalho é a mais completa análise já realizada sobre os riscos de extinção induzidos por mudanças no clima.

O autor do estudo, Mark Urban, do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos, analisou uma série de estudos publicados - conduzidos em diferentes regiões, com diversos métodos - e descobriu que a perda de biodiversidade não está apenas aumentando com as mudanças climáticas: ela está se acelerando a cada grau centígrado de aumento da temperatura global. 

As maiores taxas de risco de extinção, segundo o pesquisador, ocorrem na América do Sul, na Austrália e na Nova Zelândia, onde os hábitats das espécies estão encolhendo e há barreiras para migração. "Essas áreas são particularmente preocupantes porque esses continentes possuem variações climáticas únicas. Muitas de suas espécies nativas só podem sobreviver em um limite pequeno de modificações", disse Urban. Na Austrália e na Nova Zelândia, a estimativa é de que o aquecimento poderá levar à extinção de até 14% das espécies.

De acordo com Urban, há grande variabilidade entre as previsões que foram feitas até agora sobre riscos de extinção induzidos por mudanças climáticas. Ao analisar grande quantidade de fatores que influenciam os riscos previstos atualmente, ele descobriu que o fator que melhor explica a disparidade dos resultados é o nível das mudanças climáticas esperadas para o futuro. Partindo do pressuposto que as temperaturas futuras aumentem apenas 2°C em comparação às temperaturas anteriores à Revolução Industrial - uma estimativa que a maior parte dos especialistas considera subestimada -, Urban sugere que o risco global de extinção poderia aumentar dos atuais 2,8% para 5,2%. Se o aquecimento global mantiver sua trajetória atual, levando a um aumento médio de 4,3°C, cerca de 16% das espécies correrão grandes riscos de extinção.

Para chegar a essas conclusões, Urban analisou os resultados de 131 estudos diferentes sobre biodiversidade. Ele levou em consideração as várias técnicas de modelagem utilizadas nos estudos, os grupos taxonômicos e as áreas geográficas estudadas, os registros globais de temperatura, a distribuição das espécies e diversos outros aspectos. Tomados em conjunto, os estudos sugerem que as mudanças climáticas certamente vai acelerar as extinções em todo o mundo, caso não sejam adotadas novas estratégias para limitá-la e não sejam implementadas estratégias específicas de conservação para proteger as espécies mais ameaçadas. 

A variação das taxas de extinção entre os diversos grupos de animais não foi considerável, segundo o estudo. Mas Urban afirma que espécies endêmicas - aquelas que existem em uma única área - e certos grupos como anfíbios e répteis poderão sofrer mais extinção com o aumento das temperaturas.

Urban forneceu uma estimativa sóbria e sintética da perda de biodiversidade ligada ao clima, aplicando uma abordagem inovadora, segundo Janneke Hille Ris Lambers, do Departamento de Biologia da Universidade de Washington, dos Estados Unidos, que redigiu um comentário sobre o estudo de Urban na mesma edição da Science. "Estudos anteriores haviam fornecido estimativas de perda de biodiversidade relacionada às mudanças climáticas para grupos de animais ou regiões específicas. Mas essas estimativas variavam de 0% a 54%, o que dificultava a avaliação sobre a seriedade do problema", disse Lambers.

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