Aquele vazio dentro de você

Imagine só: A maior parte da matéria que você enxerga a sua volta é feita de espaço vazio. Inclusive a parede, a porta e o chão no qual você está pisando.   Sei que parece loucura, mas a explicação é a seguinte: como expliquei na semana passada, tudo que existe no universo (ou quase tudo, descontando a misteriosa "matéria escura") é feito de átomos.   Só que os átomos não estão coladinhos uns nos outros. Eles são feitos de um núcleo superdenso de prótons e nêutrons, ao redor do qual orbita uma "nuvem" de elétrons (o número de partículas varia para cada elemento: o hidrogênio tem 1 próton e 1 elétron, o urânio tem 92).   O curioso aqui é que os núcleos dos átomos não ficam coladinhos uns nos outros, mesmo numa estrutura sólida e rígida como a sua mesa ou uma chapa de aço. Os átomos interagem entre si (se atraem, se repelem, trocam elétrons, formam moléculas, etc), mas entre um e outro sempre sobra um espaço "vazio", no qual as nuvens de elétrons se movimentam e se sobrepõem.   O professor Marcelo Knobel, do Instituto de Física da Unicamp, me explicou isso da seguinte forma. Imagine as grades da jaula de um tigre no zoológico. O espaço entre as barras é pequeno demais para o tigre passar, mas é grande o suficiente para um mosquito ou uma formiga passar sem problemas. Se você se afastar da jaula, as grades vão parecer cada vez mais próximas, até chegar uma hora que elas "se fecham" e você não enxergará mais o tigre por trás delas.   Ou seja, é tudo uma questão de escala. Do ponto de vista de uma baleia-azul, por exemplo, a grade do tigre é uma superfície tão sólida quanto o chão no qual você pisa. O espaço vazio entre as barras é irrelevante para a baleia, assim como o espaço vazio entre os átomos da calçada é irrelevante para nós. Se você conseguisse ser miniaturizado ao tamanho de um elétron, por exemplo, você passaria por dentro da calçada como se ela fosse ar. (Aliás, vale lembrar que o ar também é feito de átomos. A diferença é que eles estão organizados num estado gasoso, vivem livres e soltos por aí, o que nos permite caminhar por entre eles sem problemas.)   Isso me faz lembrar daquele filme Viagem Insólita, de 1987, em que o Dennis Quaid é miniaturizado dentro de uma máquina e injetado dentro do atrapalhado Martin Short.   Ele ficou tão pequenininho que podia circular pela corrente sanguínea e se agarrar às paredes dos tecidos. Mas isso ainda é muito grande! Imagine se ele fosse miniaturizado ainda mais, ao tamanho de um vírus. Aí  ele poderia literalmente penetrar pelas paredes das células, ir até o núcleo e ver o DNA lá dentro - como fazem, de fato, alguns  tipos de vírus. Se fosse miniaturizado ainda mais, poderia ver os átomos individuais do DNA e navegar por entre eles. Pense nisso a próxima vez que caminhar pela rua ou se submeter a algum projeto secreto de miniaturização.

08 de agosto de 2008 | 14h19

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