Ararinhas azuis arrumam casamento por computador

A espécie brasileira mais próxima da extinção é a ararinha azul (Cyanopsitta spixii), que já não existe mais na natureza e conta apenas com 60 exemplares vivos em cativeiro. A última ararinha azul selvagem, de que se tem notícia, vivia na região de Curaçá, no sertão da Bahia, mas desapareceu em setembro de 2000, provavelmente morta por algum predador, conforme acreditam os membros do Projeto Ararinha-Azul, que acompanhavam a ave de perto. A esperança da espécie, agora, é aumentar a população de cativeiro o suficiente para, no futuro, tentar a reintrodução no ambiente natural. Não é uma tarefa simples, porque além de conseguir um bom número de filhotes, é importante que eles tenham o máximo de diversidade genética entre si, de forma a constituir uma população viável. Por isso, a formação de pares de ararinhas adultas, capazes de procriar, não pode ficar ao acaso. ?Existe um Comitê Pró Ararinha Azul, que cuida do pareamento das aves adultas em cativeiro, procurando formar casais que não sejam consangüíneos?, explica Carlos Bianchi, consultor do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e atual responsável por este trabalho para a espécie (tecnicamente conhecido como studbook keeper ou gerente de linhagem). Os pares são formados com a ajuda de um programa especial de computador, que identifica a representatividade genética de cada ararinha na população total (chamada de mean kinship) e procura os pares ideais para aumentar a diversidade genética.E o próximo casamento arranjado via computador, que acaba de ser aprovado pelo comitê, é o de uma fêmea do Loro Park, de Tenerife, na Espanha, com um macho do Criadouro Científico Chaparral, em Recife, Pernambuco. Dois filhotes ? duas fêmeas ? já nasceram no Chaparral, em 2000, mas a mãe morreu logo em seguida ao choco, deixando o macho ?viúvo?, aos 14 anos, em plena idade fértil e com duas filhas jovens, com as quais ele não pode cruzar. A expectativa, com o novo casamento, é que eles se reproduzam pelo menos duas vezes, pois a fêmea de Tenerife já tem 25 anos, idade considerada limite para a reprodução. ?A fêmea terá tratamento VIP e deverá viajar dentro do avião, na cabine de passageiros, e não junto com a carga?, conta Bianchi. ?Mas não temos garantia de que irá se adaptar, e mesmo correndo tudo bem, às vezes o casal demora meses ou anos até procriar?. Os pares, quando se juntam, são observados diariamente e, no caso de haver postura, mas a fêmea abandonar o ninho, pode-se recorrer a chocadeiras artificiais. Depois da postura, se os ovos forem férteis, os filhotes nascem em menos de um mês.A viagem está prevista para a primeira quinzena de julho. E outros dois pareamentos estão programados também para este ano, entre os dois machos do Zôo de São Paulo e duas fêmeas de um criador sueco. Um macho será levado para a Suécia e uma fêmea será trazida para o Brasil em seu lugar. Os casamentos arrajados por computador são sempre revisados pelo Comitê Pró Ararinha Azul e podem ser desmanchados e refeitos, visando o melhor resultado para a população total. Outras espécies ameaçadas de extinção têm programas semelhantes em cativeiro, mobilizando zôos e criadores de todo o mundo, como é o caso da ararinha azul de lear e das várias espécies de mico leão, do Brasil; do panda vermelho, do Nepal; da zebra de Grevy, da Somália e do tigre siberiano, entre outros.

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