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Armadilha evolutiva letal

Ao colocar o gado em um vale, as borboletas aumentaram. Ao tirar, elas desapareceram

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2018 | 03h00

Ao colocar gado nas pastagens naturais de um vale em Carson City, Nevada, nos Estados Unidos, os seres humanos montaram uma armadilha letal para uma espécie de borboleta. Com o gado, a quantidade de borboletas cresceu muito. Mas, décadas mais tarde, ao retirar o gado para restaurar o ambiente original, a armadilha oculta foi ativada e a população de borboletas desapareceu. É uma dessas histórias que nos ensinam muito sobre como funciona a evolução.

Nos pardos do Vale Schneider, irrigado por um riacho, vivia feliz uma população de borboletas (Euphydryas editha). Essas borboletas colocavam ovos em uma planta nativa de ciclo anual (Collinisia parviflora). Todos os anos, após os ovos eclodirem, as lagartas devoravam as folhas da planta e cresciam rapidamente. Como a planta era efêmera, só as lagartas mais rápidas conseguiam crescer o suficiente para formar seus casulos antes da planta morrer no inverno. Desses casulos nasciam novas borboletas que, após alegrar o vale por uns dias, colocavam novamente seus ovos na planta nativa e o ciclo se repetia.

Quando algumas vacas foram colocadas para pastar nesses prados, na metade do século 20, elas trouxeram para o vale sementes de uma planta que não existia na região (Plantago lanceolata). Essa planta baixinha só conseguiu sobreviver no vale porque as vacas comiam as outras gramíneas, deixando a relva mais baixa. Apesar de pequena, essa nova planta resistia melhor ao frio no outono e durava mais tempo. 

Em 1983, um grupo de ecologistas observou um fenômeno curioso. Grande parte das borboletas presentes no Vale Schneider agora estava colocando seus ovos na nova planta presente no pasto. Para as borboletas, a presença de uma planta que durava mais tempo era uma grande vantagem. Ela permitia que um número maior de lagartas sobrevivesse e um número maior de casulos se formasse. Com a possibilidade de colocar seus ovos nessa nova planta, o número de borboletas aumentou. Muitos poderiam argumentar que a introdução do gado na região tinha tornado o vale mais belo e colorido. Ao longo dos anos seguintes, as borboletas evoluíram e passaram a desprezar a planta nativa que continuava a existir no vale.

Com o intuito de restaurar o ambiente natural do Vale Schneider, em 2005 os humanos retiraram todo o gado da região e, de um ano para o outro, as borboletas desapareceram. Estudando as borboletas existentes no vale antes da retirada do gado, os ecologistas descobriram que elas haviam evoluído e agora só colocavam seus ovos na planta introduzida, a P. lanceolata, mesmo quando a planta nativa estava presente. Ao retirar o gado, o capim voltou a ficar mais alto e a P. lanceolata ficava coberta pelas outras espécies, impedindo que as borboletas as localizassem para colocar os ovos. 

Por outro lado, a planta nativa, a C. parviflora, estava por todo o lado, mas as borboletas haviam evoluído e agora a desprezavam, nunca colocando ovos na sua superfície. Sem ter onde colocar os ovos, as borboletas desapareceram do vale. E o vale, sem vacas, perdeu as borboletas.

A conclusão desse estudo é que o ser humano, ao introduzir o gado, trouxe junto uma planta melhor para as borboletas e elas evoluíram para se adaptar ao novo ambiente. Mal sabiam elas que estavam entrando em uma armadilha, ao perder a afinidade pela planta nativa. Quando o homem tirou o gado do vale, as borboletas não eram mais capazes de colocar ovos na planta nativa. E foi nesse momento que a porta da armadilha se fechou e as borboletas desapareceram. Esse é o primeiro exemplo de armadilha evolutiva fatal criada pelo ser humano. 

Mas nem tudo está perdido. Em vales vizinhos, em que o gado não foi introduzido, comunidades dessa mesma borboleta mantiveram sua preferência pela planta nativa. E agora, aos poucos, essas borboletas estão migrando para o Vale Schneider e colorindo o vale com borboletas. Já as que caíram na armadilha humana desapareceram da face da Terra. De certa maneira, nos últimos séculos, ao se tornar refém de inúmeras tecnologias para sobreviver, o ser humano está criando uma armadilha parecida.

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