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Arqueologia da dor

Essas práticas da pré-história eram bem mais ‘humanas’ que muitas da Idade Média

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2019 | 03h00

Humanos de épocas pré-históricas deixaram rastros na forma de ossos, artefatos, construções e desenhos. Assim, é difícil descobrir o que sentiam ou como se comportavam. Mas há uma exceção: cadáveres achados em pântanos. Nesse caso, partes moles do corpo - como pele, músculos e órgãos internos - estão perfeitamente preservados, enquanto os ossos podem estar parcialmente dissolvidos. São corpos mumificados, preservados pela natureza.

Os cadáveres são achados em pântanos úmidos e ácidos em que se acumula grande camada de restos de vegetais. Lá, praticamente não há oxigênio e uma espécie de lama quase sólida se acumula. Como esse material pode ser usado como combustível, esses pântanos começaram a ser escavados em meados do século 19 e aconteceu o que acontece em qualquer lugar em que se faz um buraco: sinais do passado vêm à tona. No caso, corpos bem preservados. 

Apesar de podermos achar corpos de épocas recentes, da 1.ª Guerra Mundial, os mais antigos são de mais de 2,3 mil a 2,4 mil anos atrás. A grande parte desses corpos foi achada no norte da Europa, na Dinamarca, Alemanha, Irlanda, Noruega e Inglaterra.

Cada corpo recebe nome, é estudado, e acaba em um museu. O que chamou a atenção dos pesquisadores é que grande parte sofreu morte violenta. Por exemplo: a Elling Woman morreu estrangulada, a corda achada no pescoço. O Grauballe Man teve a garganta cortada. Lidow II teve a jugular cortada enquanto Dätgen Man sofreu facada no coração e decapitação. Em alguns casos, mamilos e genital estavam decepados, braços cortados, crânios rompidos. O fato é que a grande maioria foi morta e de modo violento.

Essas descobertas criaram a impressão de que os homens que viviam no norte da Europa por essa época eram violentos, torturadores, cruéis e ligados a rituais macabros. Afinal, quase todos os corpos achados estavam mutilados.

É claro que uma amostra de corpos dos pântanos não deve ser representativa. A maioria das pessoas da época foi enterrada no solo e sobraram apenas ossos. Só em raros casos é possível identificar a causa da morte com base em esqueletos. É fácil notar que alguém que teve a garganta cortada e outro que morreu de câncer produzem esqueletos idênticos. 

É difícil entender porque esses corpos foram vítimas de morte violenta, mas uma hipótese é que os pântanos eram na época o equivalente do que chamamos de áreas de “desova de presuntos”, locais onde vítimas de crime ou criminosos são abandonados. Agora, cientistas tentaram descobrir quanto sofrimento elas tiveram de suportar antes de morrer. Isso é importante porque permite saber se foram vítimas de longas torturas ou mortas do modo mais fácil e rápido disponível na época.

Dez desses cadáveres, com mais de 2 mil anos, e todos com diferentes sinais de violência, foram reestudados. O objetivo foi definir com precisão a lesão que levou à morte e o tempo transcorrido entre a lesão e a morte. Para isso, os cientistas examinaram cuidadosamente os cadáveres e determinaram, sempre que possível, a sequência das lesões (quando havia mais de uma). 

Ficou claro que muitas das lesões foram causadas por alterações no cadáver após a morte ou muito antes dela. Num cadáver que tinha um braço quebrado, foi possível demonstrar por raios X que o osso já estava em estado de regeneração e, portanto, a fratura teria ocorrido muito antes da morte. Em outro caso, ficou claro que a decapitação foi muito depois da morte, já no pântano, por movimentos no solo.

Foi possível definir a causa da morte nos dez casos. Em todos, o método usado para matar leva à inconsciência em pouco tempo. Estrangulamento demora menos de 15 segundos para a perda de consciência. Cortar o pescoço leva à inconsciência em 10 segundos. Facada no coração, 4 segundos. Decapitação, imediatamente. Em um caso, o do homem de Lindow II, o tempo entre a lesão e a inconsciência demorou cerca de 1 minuto (corte de uma jugular).

Com base nisso, cientistas acreditam que o sofrimento dessas vítimas (medida entre o ataque e a inconsciência) foi curto. É claro que não sabemos o que houve antes do ataque final. Podem ter sido pegas de surpresa ou sofrido encarceradas por meses antes da execução. O fato é que o método usado para matar era o mais rápido disponível.

O resultado demonstra que essas práticas da pré-história eram bem mais “humanas” que muitas da Idade Média (amarrar alguém a quatro cavalos, um em cada membro, e puxar até arrebentar) ou mesmo em execuções malsucedidas de hoje (injetar o veneno letal fora da veia, como ocorreu recentemente nos EUA). Ainda não sabemos quão violentos eram os ancestrais, mas dada a violência nas sociedades modernas não seria de espantar se no futuro descobrirmos que a vida já valia muito pouco no fim da pré-história. 

MAIS INFORMAÇÕES: TOWARDS AN ARCHAEOLOGY OF PAIN? ASSESSING THE EVIDENCE FROM LATER PREHISTORIC BOG BODIES. OXFORD J. ARCHEOLOGY, VOL. 38, PÁG. 1 (2019)

*É BIÓLOGO

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