Brett Seymour / EUA / WHOI / ARGO
Brett Seymour / EUA / WHOI / ARGO

Arqueólogos descobrem esqueleto em naufrágio do século 1 a.C

Encontrada em 1900, embarcação naufragada na costa da Grécia já era considerada uma das descobertas mais espetaculares da Antiguidade; ossos poderão revelar o DNA de uma vítima de naufrágio há mais de 2 mil anos

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2016 | 18h29

Em 1900, mergulhadores descobriram os restos de um navio mercante naufragado na costa da Grécia no século 1 a.C, que incluíam o chamado mecanismo de Anticítera - uma máquina de complexas engrenagens utilizada para navegação, que é considerada o artefato tecnológico mais sofisticado remanescente da Antiguidade. Agora, um grupo de arqueólogos acaba de anunciar uma descoberta ainda mais rara: os ossos preservados de uma vítima daquele naufrágio.

O esqueleto encontrado no dia 31 de agosto, no mesmo local onde foram descobertos os destroços - repletos de preciosidades - há mais de 100 anos, é de um homem com cerca de 20 anos. Segundo os arqueólogos, o achado é raríssimo e os ossos poderão fornecer a primeira análise DNA de uma vítima de um naufrágio na Antiguidade, já que normalmente os corpos são levados pelas correntes ou devorado pelos peixes.

A descoberta foi noticiada nesta segunda-feira, 19, em reportagem produzida pela revista científica Nature. De acordo com os arqueólogos, o esqueleto inclui uma parte do crânio com três dentes, dois ossos dos braços, várias costelas e dois fêmures. Todos pertenciam à mesma pessoa.

De acordo com o arqueólogo que coordenou as escavações, Brendan Foley, da Instituição Oceanográfica Woods Hole, a ossada está surpreendentemente bem preservada. Ele afirma que, caso seja possível fazer a análise de DNA, o achado representa uma oportunidade para saber mais sobre as pessoas a bordo da embarcação do século 1 a.C, que levava para Roma itens de luxo do leste do Mediterrâneo. Estima-se que o navio afundou em 83 a.C.

"Estamos emocionados. Nunca ouvimos falar de nada assim. É a descoberta científica mais incrível que já fizemos", afirmou. Segundo ele, é provável que a vítima do naufrágio tenha ficado presa sob os escombros no fundo do mar. "Achamos que ele ficou preso no navio e, quando ele afundou, deve ter sido enterrado muito rapidamente, caso contrário os ossos não seriam encontrados", disse Foley.

Um exame preliminar sugere que os ossos eram de um jovem, segundo Hannes Schroeder, especialista em análise de DNA do Museu de História Natural da Dinamarca, em Copenhague. Os cientistas estão esperando agora a permissão do governo da Grécia para realizar a análise completa do DNA, que poderá fornecer informações sobre características que vão das cores dos olhos e cabelos até a origem geográfica do esqueleto.

Segundo os cientistas, os esqueletos de naufrágios mais antigos já encontrados até hoje são os de embarcações dos séculos 16 e 17: respectivamente, o navio de guerra britânico Mary Rose e o cargueiro sueco Vasa.

De acordo com os arqueólogos, o corpo encontrado no local do naufrágio - a 10 minutos de barco a partir da ilha Anticítera, que fica entre Creta e o Peloponeso - estava enterrado sob uma camada de cerca de meio metro de areia e cacos de cerâmica.

Schroeder conta que estava cético quando foi chamado por Foley para descobrir se seria possível realizar uma análise de DNA de ossos que estavam submersos no mar há mais de 2 mil anos. Mas, assim que viu os ossos, ficou agradavelmente surpreso pelo grau de preservação do material e por encontrar, entre os fragmentos do crânio, o osso petroso - uma parte do osso temporal, localizada atrás das orelhas, que é capaz de preservar o DNA melhor que os dentes e outras partes do esqueleto.

"Nem parecem ossos de 2 mil anos. É incrível que tenham encontrado isso. Se houver algum DNA, até onde eu sei, ele estará aí", afirmou Schroeder. Os arqueólogos afirmam que outros ossos provavelmente relacionados ao naufrágio de Anticítera já haviam sido encontrados pelo explorador marinho francês Jacques Cousteau, em 1976. Mas eles estavam espalhados no leito marinho e não se prestaram à análise de DNA.

Preciosidades. Quando foi encontrado por pescadores de esponjas, em 1900, o navio continha deslumbrantes estátuas de bronze de mármore, peças ornamentais de vidro e de cerâmica, joias de ouro e o extraordinário aparelho conhecido como mecanismo de Anticítera, que modelava o movimento do Sol, da Lua e de outros astros. Tudo foi recolhido na época pelos pescadores e hoje apenas potes quebrados permanecem no leito marinho.

Foley acreditava, no entanto, que a maior parte do navio pode estar enterrada sob os sedimentos. Por isso, em 2014, sua equipe - que inclui vários mergulhadores especializados em escavações e membros do serviço arqueológico da Grécia - localizou e mapeou o local, que fica a cerca de 50 metros de profundidade, a fim de fazer suas próprias escavações.

Nas novas escavações, ao longo de 2015, os arqueólogos encontraram ânforas de vinho, objetos de vidro, duas lanças de bronze que pertenciam a estátuas, mais joias de ouro e jarros de mesa utilizados pela tripulação. Em junho de 2016, os mergulhadores também encontraram componentes do navio, como pesadas âncoras. Em agosto, eles encontraram o esqueleto.

Os pesquisadores acreditam que o navio mercante tinha grand porte - talvez mais de 40 metros de comprimento -, com mais de um convés e uma tripulação de 15 a 20 pessoas. Pela proximidade do local do naufrágio com o litoral, os arqueólogos acreditam que o navio foi lançado por uma tempestade contra os rochedos, naufragando rapidamente antes que os passageiros tivessem chance de reagir.

Mais conteúdo sobre:
Grécia Antiguidade DNA Copenhague Sol Lua

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.