Reuters
Reuters

Arrancar cabelo de área específica pode induzir regeneração de fios

Cientistas demonstram em camundongos que arrancar 200 fios em áreas circulares de até 5mm estimulou crescimento de 1,3 mil pelos

FÁBIO DE CASTRO, O Estado de S. Paulo

09 Abril 2015 | 19h46

Embora pareça contrassenso, arrancar um certo número de fios de cabelo, em um padrão específico de densidade, pode induzir o crescimento de uma quantidade bem maior de fios. A conclusão é de um novo estudo coordenado por cientistas da Universidade do Sul da Califórnia (Estados Unidos) e publicado na revista Cell. Os pesquisadores demonstraram, em camundongos, que arrancar 200 fios em áreas circulares de 3 a 5 milímetros estimula a regeneração de até 1300 fios, mesmo fora da área da remoção.

Segundo os autores, a pesquisa traz esperança de novos tratamentos para a calvície e a alopecia - uma condição que causa a perda de cabelos em áreas delimitadas. "É um bom exemplo de como a pesquisa básica pode levar a um trabalho com potencial valor translacional. O trabalho leva a potenciais novos alvos para o tratamento de alopecia", disse o pesquisador que coordenou o estudo, Cheng-Ming Chuong. A medicina translacional é um ramo da pesquisa médica que procura conectar diretamente a investigação científica ao tratamento dos pacientes.


O estudo começou há dois anos, quando o dermatologista Chih-Chiang Chen chegou à Universidade do Sul da Califórnia como professor visitante do Hospital Geral de Veteranos da Universidade Nacional Yang-Ming, de Taiwan. Chen, que é o primeiro autor do artigo, sabia que um dano ao folículo - estrutura da pele responsável pela produção dos pelos - afeta o ambiente no seu entorno. O laboratório de Chuong, por outro lado, já havia descoberto que esse ambiente pode influenciar a regeneração capilar. Com base na combinação desses conhecimentos, eles imaginaram que poderiam usar o ambiente para ativar mais folículos.

Para testar o conceito, Chen desenvolveu a estratégia de arrancar 200 folículos, um por um, em configurações diferentes nas costas de um camundongo. Quando os pelos eram arrancados em um padrão de baixa densidade, em áreas com mais de 6 milímetros de diâmetros, nenhum pelo se regenerava. No entanto, arrancando os pelos em densidade mais alta, em áreas circulares com diâmetros de 3 a 5 milímetros, os cientistas desencadearam a regeneração de 450 a 1300 pelos na área de remoção e fora dela.

Os cientistas explicam o funcionamento biológico do processo a partir do princípio conhecido como "percepção de quórum", que define como um sistema responde a um estímulo que afeta apenas uma parte de seus membros. No caso do estudo, a "percepção de quórum" explica como o sistema dos folículos responde à remoção de apenas uma parte dos cabelos. Trabalhando com Arthur Lander, da Universidade da Califórnia em Irvine, a equipe de cientistas demonstrou que é esse o princípio por trás do processo regenerativo.

Por meio de análises moleculares, a equipe mostrou que os folículos arrancados sinalizam tensão liberando proteínas inflamatórias. Essas proteínas "recrutam" células do sistema imunológico que se precipitam para o local do dano. Tais células, então, secretam moléculas sinalizadoras - como o fator de necrose tumoral alfa (TNF-?) -, que, em certa concentração, comunica tanto para os folículos arrancados como para os não arrancados que é hora de produzir cabelo.

"A implicação desse trabalho é que processos paralelos também podem existir em processos fisiológicos ou patogênicos em outros órgãos, embora eles não sejam tão fáceis de observar como a regeneração capilar", disse Chuong. 

Outro trabalho de Chuong foi selecionado em fevereiro pela revista Science como uma das 10 grandes descobertas de 2014. O trabalho explicava como a regulação das células-tronco no folículo das penas contribuiu para a evolução dos dinossauros emplumados em aves modernas. Também em fevereiro, Chuong foi nomeado membro da Associação Americana para o Avanço das Ciências (AAAS, na sigla em inglês), entidade  responsável pela edição da Science.

Mais conteúdo sobre:
Ciênciacalvíciecabelos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.