Artigo: Os devotos da ciência

SÃO PAULO - A sociedade contemporânea atribui grande valor à ciência, ainda mais em relação às questões de saúde. Isso é conectado ao fato de a imprensa noticiar com destaque alguns feitos terapêuticos e tecnológicos resultantes de pesquisa e desenvolvimento nessa área. Certos "milagres de laboratório", decorrentes de muito trabalho e empenho de seus artífices, efetivamente salvam e mudam vidas, deixando marcas históricas. Daí a reverência a figuras como Alexander Fleming, Louis Pasteur, Marie Curie e Carlos Chagas. Por sua vez, os médicos não produzem, mas alguns aplicam de modo mais evidente ou original tais conhecimentos, o que também lhes confere valor social. Há uma admiração generalizada pelos dedicados doutores, sejam eles religiosos como os lendários "médicos dos pobres" e a fundadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, ou então ateus, como o midiático Drauzio Varella.

André Ricardo de Souza, Professor adjunto do Departamento de Sociologia da UFSCar

01 Junho 2014 | 05h00

Grande parte das pessoas religiosas vê a ciência como obra de Deus ou fruto de inspiração divina e espiritual a seus profissionais. Quando as pesquisas indicam possibilidade de cura para uma grave doença ou reabilitação física, traços do drama humano, a valorização do cientista é ainda maior, aproximando-se da devoção religiosa. Envolve ardor esperançoso, principalmente das vítimas e suas famílias. Mas por vezes, ocorre frustração, como vem se dando em relação aos resultados da decifração do genoma humano e do uso terapêutico de células tronco embrionárias, ambos anunciados com bastante entusiasmo, alarde, cobertura jornalística e interesse por parte da indústria médica. Expectativas e especulações, muitas vezes, se misturam nos discursos sobre avanços científicos.

No caso do projeto Andar de Novo, o apreço pelo cientista e a esperança quanto aos resultados do seu trabalho não conflitam com preceitos religiosos, o que acaba por lhe propiciar maior simpatia. Tal empreitada envolve, não só a parcial reabilitação física de pessoas, mas também o avanço tecnológico na produção de equipamentos, aliados ao simbolismo verde-e-amarelo de ser algo conduzido no país por um pesquisador brasileiro com algum renome no exterior. A espetacularização dos achados e avanços científicos na área médica encobre, ao menos em parte, o ônus do alto custo e da consequente demora na difusão do invento em face de outros setores da saúde, muito mais simples e carentes de recursos. O chute inicial da Copa do Mundo por alguém com lesão medular, usando uma veste robótica, expressa a confluência de interesses: médico-científico, político e também econômico, dado o volume de recursos investidos e esperados como retorno.

Miguel Nicolelis, assim como outros cientistas da área da saúde, é visto e tratado como missionário por muitas pessoas religiosas. Seu trabalho, de fato, encerra responsabilidade. Tanto os indivíduos que anseiam pela cura e reabilitação própria ou de seus familiares, quanto os pesquisadores e seus auxiliares, são verdadeiros devotos da ciência.

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