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As amêndoas modernas

Sem saber, nossos ancestrais escolheram uma variedade da fruta sem amigdalina

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2019 | 03h00

Amigdalina é um composto tóxico presente em sementes de damasco, pêssegos, ameixas e maçãs. Se comermos essas sementes, a amigdalina é degradada, liberando ácido cianídrico, um composto que pode ser fatal (a dose letal é de 0,6 a 1,5 miligramas por quilo de peso corporal). Mas, para isso, é preciso ingerir uma grande quantidade de semente, o que dificilmente ocorre, pois comemos unicamente a parte externa dessas frutas, onde não existe amigdalina.

Entre as frutas que produzem amigdalina estão as amêndoas, uma fruta da qual consumimos a semente. As amêndoas selvagens têm grande quantidade de amigdalina (1,4 mil miligramas por quilo de semente). Ingerir uma grande quantidade de amêndoas selvagens pode ser letal.

Amêndoas selvagens são amargas e ruins de comer e os acidentes são extremamente raros. As amêndoas foram domesticadas pelo homem ainda no inicio da agricultura, por volta de 10 mil anos atrás. As variedades domésticas não são amargas, suas sementes quase não possuem amigdalina (63 miligramas por quilo de semente) e não são tóxicas. 

Após sua domesticação no crescente fértil (entre os Rios Tigre e Eufrates, no Oriente Médio), as amêndoas doces se espalharam pelo Mediterrâneo e chegaram aos Estados Unidos, onde são cultivadas em larga escala.

Nossos ancestrais selecionaram a variedade sem amigdalina, mas não se sabia o que havia de diferente no genoma das amêndoas doces que bloqueava a produção da toxina. Agora foi sequenciado o genoma da amêndoa doce e ele foi comparado com o genoma da amêndoa selvagem. Foi possível identificar a região do genoma responsável pela ausência de amigdalina nas plantas domesticadas.

Essa região contém uma série de cinco genes que codificam proteínas que regulam a produção de enzimas. Também foi descoberto que as enzimas reguladas por esses genes são as responsáveis pela produção de amigdalina. 

O interessante é que, no genoma das amêndoas doces (sem amigdalina), um desses genes possui uma única mutação que o distingue do gene que existe nas amêndoas amargas. Essa mutação troca um único aminoácido, uma leucina por uma fenilalanina, nessa proteína. Essa troca destrói o funcionamento da proteína. Como essa proteína é necessária para a ativação do gene que é responsável pelo primeiro passo na produção da amigdalina, e como esse primeiro passo está inibido, a semente quase não produz amigdalina, fica doce e deixa de ser tóxica.

Milhares de anos atrás, um de nossos ancestrais encontrou uma amendoeira em que as sementes não eram amargas, uma planta onde essa mutação ocorreu ao acaso. Nosso ancestral gostou do sabor, plantou algumas dessas sementes e iniciou a cultura das amêndoas doces. Muito provavelmente todas as árvores de amêndoas que cultivamos hoje são descendentes dessa árvore mutante descoberta milhares de anos atrás.

Hoje comemos suas sementes sem nos preocupar com sua origem. Mas o que aconteceria se, usando as modernas técnicas de engenharia genética, provocássemos a mesma mutação em um damasco, um pêssego, uma ameixa ou uma maçã com o objetivo de abolir a produção de amigdalina nessas sementes, tornando-as comestíveis? 

É certeza que elas serão classificadas como frutas geneticamente modificadas e terão de ser aprovadas pelos governos antes de serem consumidas. E, muito provavelmente, muitas pessoas que comem amêndoas doces todos os dias se recusarão a comer essas plantas geneticamente modificadas. Faz sentido?

MAIS INFORMAÇÕES: MUTATION OF A BHLH TRANSCRIPTION FACTOR ALLOWED ALMOND DOMESTICATION. SCIENCE. VOL. 364, PAG. 1095 / 2019

*É BIÓLOGO

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