Kim Kyung-Hoon/Reuters - 1/7/2019
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Fernando Reinach
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As orcas de Crozet

Usando câmeras fotográficas, cientistas têm estudado o comportamento delas e feito descobertas interessantes

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2022 | 05h00

Essa história se passa nos arredores das ilhas Crozet, no Oceano Índico. Os tripulantes do navio francês que descobriram as ilhas em 1772 foram devorados por canibais na Nova Zelândia no ano seguinte. Um marinheiro chamado Crozet sobreviveu, daí o nome. Localizadas a meio caminho entre Madagascar e a Antártida, hoje as ilhas são habitadas por 18 pessoas. 

Em 1996, pescadores ilegais observaram orcas devorando os peixes capturados em suas longas linhas de pesca. Com centenas de anzóis, elas são usadas para fisgar o Dissostichus eleginoides (Sea Bass da Patagônia), um peixe que pode chegar a 100 quilos e 2 metros de comprimento. Enquanto essa atividade era clandestina, os pescadores tentavam matar as orcas que roubavam suas presas, mas, desde o ano 2000, quando a atividade foi regulamentada, a vingança humana sobre as orcas foi proibida.

Hoje sete barcos pesqueiros atuam na região. Usando câmeras fotográficas, os cientistas têm estudado o comportamento das orcas. Para uma orca, comer um peixe já capturado é uma grande vantagem: os pescadores capturam a comida, e a orca fica só esperando as linhas chegarem perto do barco. Aí, ela abocanha o peixe. Parece moleza, mas é uma atividade arriscada. Se a orca engolir o peixe todo, como costuma fazer, ela corre o risco de ficar preza no anzol ou se machucar. Por esse motivo, elas precisam aprender a cortar o peixe logo abaixo da cabeça com os dentes, devorando o corpo e deixando a cabeça presa no anzol dos pescadores. 

Como as orcas podem ser identificadas individualmente pelas suas manchas e cicatrizes, os cientistas descobriram que no ano 2000 somente dez orcas eram capazes dessa proeza. O aprendizado foi rápido. Em 2003, 30 orcas já sabiam o truque, e esse número subiu para 70 em 2006. No ano de 2018 mais de 90 orcas conheciam o truque. A população desse grupo de orcas na ilha de Cruzet é de aproximadamente 100 animais. Ou seja, em 18 anos, todas as orcas da comunidade aprenderam a roubar os peixes dos anzóis. Um roubo que totaliza 180 toneladas de peixe por ano.

Para os pescadores, o pior é que essa descoberta feita pelas orcas de um dos grupos agora está se disseminando em outro grupo de orcas que vive na região.

Essas descobertas demonstram como orcas são capazes de descobrir novos truques para se alimentar, aproveitando as facilidades criadas pelos seres humanos. Mostra também como esse conhecimento adquirido por alguns membros do grupo rapidamente se espalha por todos os membros da comunidade. É como se existisse uma escola para orcas onde as mais velhas transmitissem às mais novas seus conhecimentos.

 

MAIS INFORMAÇÕES PODEM SER ENCONTRADAS EM: INCREASING NUMBERS OF KILLER WHALE INDIVIDUALS USE FISHERIES AS FEEDING OPPORTUNITIES WITHIN SUBANTARCTIC POPULATIONS. BIOL. LETT. HTTPS://DOI.ORG/10.1098/RSBL.2021.0328 2022

* É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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