Assentados do Pontal colhem primeira safra do "Café com Floresta"

Assentados, pesquisadores e comerciantes comemoram amanhã (30/8), com um café da tarde, a primeira colheita do Programa ?Café com Floresta?, na sede do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), no Pontal do Paranapanema. A safra ainda é pequena ? 10 sacas ? porque resulta dos primeiros quatro projetos piloto, implantados apenas em 2000. Mas a qualidade já supera as expectativas: o café foi classificado como gourmet de alta qualidade e cotado a R$ 350 a saca, mais do que o dobro do café comum, normalmente vendido a R$ 150. Os agricultores esperam vender o produto na capital paulista, em embalagens de 250 gramas, com o slogan ?Mais sabor para você, mais saúde para o planeta?, ao preço sugerido de R$ 2,50. O ?Café com Floresta? é um programa de reflorestamento, que incentiva assentados das vizinhanças do Parque Estadual Morro do Diabo, no extremo oeste de São Paulo, a plantar pelo menos um hectare de árvores nativas, em cada lote de 17 a 20 hectares, enriquecendo as trilhas usadas por alguns animais silvestres. O objetivo de médio e longo prazo é formar corredores para a fauna, reconectando a floresta do parque com fragmentos florestais localizados dentro de fazendas e nas reservas dos assentamentos. A combinação das mudas de árvores nativas com o café agrega valor à atividade de reflorestamento e viabiliza o cultivo orgânico, que necessita da sombra da floresta. O programa recebe o apoio da Ashoka Empreendedores Sociais, Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, Fundação Interamericana e Instituto Florestal de São Paulo e da Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Conta com cerca de US$100 mil para um prazo de 4 anos, recursos utilizados no estabelecimento de viveiros de mudas de nativas - de pelo menos 40 espécies diferentes - e compra das mudas orgânicas certificadas de café, além da assistência técnica e cursos de capacitação dos agricultores.?O resultado da primeira colheita animou muito os assentados, mas o ganho mais significativo não está na cotação do café, está na mudança cultural do assentado, que optou pelo programa?, ressalta Jefferson Ferreira Lima, do IPÊ, responsável pela assistência técnica. ?As 43 famílias (de 9 asssentamentos), que já entraram no programa, mudaram seu paradigma de produção: eles não queimam mais lixo ou folhas ou restos de cultura, mas juntam tudo na composteira para fazer o adubo orgânico do café. Eles estão conquistando autonomia nos sistemas de produção de seus lotes, com alto índice de aproveitamento dos recursos locais. Também aprenderam a valorizar a diversidade, tanto nas pequenas manchas de floresta como no meio do cafezal, onde plantam milho, feijão, mandioca, abóbora, melancia, tomatinho e outros?.Com esta mudança, garante Lima, ?em apenas três anos se tornaram famílias diferenciadas, que deixaram de ver a terra como uma máquina de produção - da qual sempre se tira tudo - para viver a integração entre as espécies, as plantas, os animais, os insetos e o homem?. O resultado prático é um baixo índice de ataque de pragas e doenças no café cultivado, apesar da eliminação de venenos químicos, e a alta qualidade dos alimentos obtidos.Para melhor adequação do sistema de produção à mão de obra familiar, o café é colhido manualmente, três ou quatro vezes por safra, ?nos panos?. Isso quer dizer, que só se colhe o café cereja, amadurecido no pé, sem mistura com frutos verdes ou secos e derrubado sobre lonas estendidas no chão ou panos amarrados à cintura, para evitar batidas, fatores determinantes para o sabor diferenciado do café gourmet. Quer dizer também, que os gastos com a colheita são menores, pois não há necessidade de recorrer a bóias-frias ou mutirões: a família mesmo vai colhendo o grão aos poucos, à medida em que ocorre a maturação. A partir desta colheita, os técnicos e pesquisadores do IPÊ vão investir no desenvolvimento de uma logística de mercado, orientando os produtores na formação de uma associação. A idéia é que eles mesmos assumam os negócios, enquanto a ong mantém o trabalho de educação ambiental, trabalhando a importância dos corredores e das culturas orgânicas para a conservação da biodiversidade.

Agencia Estado,

29 de agosto de 2003 | 16h47

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.