Assentamento do Incra exporta cacau ecológico

As primeiras 15 toneladas de cacau orgânico, cultivado sem agrotóxicos, por trabalhadores rurais assentados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) no sul da Bahia, foram exportadas no fim de semana do porto de Salvador para a empresa suíça Bernrain, fabricante de chocolate. O projeto de desenvolvimento sustentável é patrocinado pelo WWF-Brasil, uma das mais importantes organizações não-governamentais ambientalistas do mundo, e pela ong baiana Jupará.Cultivado usando a sombra de árvores da Mata Atlântica, o cacau orgânico tem uma cotação de preço até 40% maior que o convencional, no mercado internacional. O projeto baiano é certificado pelo Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento, reconhecido nacional e internacionalmente, e tem controle de qualidade da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac).Através de uma cooperativa, 22 produtores cultivaram e prepararam o cacau, com a orientação dos técnicos das organizações ambientalistas. Ao invés de usar adubos químicos, os agricultores enriqueceram o solo com material orgânico, não poluente, e deixaram de usar pesticidas. Eles ainda usaram uma variedade de cacau resistente à vassoura de bruxa, um fungo que arruinou as grandes plantações de cacau na região, no início da década de 90."Esta exportação mostra a viabilidade econômica, social e ambiental da agricultura orgânica e fortalece uma organização cooperativista de base comunitária regional, que tem a capacidade de gerenciar todo o processo, da produção à exportação de produtos saudáveis", disse Luiz Souto, coordenador técnico da Jupará. Com o cacau ecológico, a Bernrain pretende fabricar uma série especial de chocolates para o WWF suíço. O trabalho de conservação dos remanescentes de Mata Atlântica na região cacaueira começou há oito anos, com a formação e consolidação da Reserva Biológica de Una, onde vive o mico-leão-de-cara-dourada.O incentivo ao plantio de cacau orgânico "é um modelo que demonstra como o processo de reforma agrária em áreas de Mata Atlântica pode ser compatível com a conservação da natureza em áreas críticas e com espécies ameaçadas", acredita Leonardo Lacerda, superintendente de conservação do WWF-Brasil. Segundo ele, a parceria entre assentados, organizações não-governamentais e empresas, do Brasil e do exterior, "mostra que é possível usar a globalização a favor da conservação e de um comércio mais justo".Um total de 80 toneladas de cacau orgânico certificado devem ser exportadas, neste primeiro ano, pelos 22 pequenos produtores, dos 6 assentamentos do Incra. É uma gota entre as exportações brasileiras anuais de cerca de 170 mil toneladas, mas uma gota que se traduz como a melhor perspectiva para a agricultura familiar da região, incapaz de competir em escala com os grandes produtores.A perspectiva desses produtores é de chegar às 100 toneladas anuais, dentro de 3 anos. Depois de se tornarem "agroecologistas", eles produtores passaram a entender a função e respeitar melhor as Áreas de Preservação Permanente (APPs) e as Reservas Legais dos assentamentos, garantindo a qualidade ambiental local e a diversidade de espécies, também consideradas importantes para o controle de pragas e fungos.Com mais mão-de-obra disponível, os pequenos produtores também fazem a secagem do cacau ao sol, com beneficiamento artesanal e assim garantem uma qualidade superior do produto final. "Cerca de 10% dos 8.500 hectares de cacau, onde já assentamos 5 mil famílias, estão certificados ou em processo de certificação", conta Luiz Gugé Fernandes, superintendente regional do Incra. "E isso é só o início: o próximo passo é verticalizar, com a produção do chocolate orgânico ali mesmo, no sul da Bahia".A primeira exportação do cacau orgânico, para Fernandes, "é um marco para a reforma agrária", demonstrando que as políticas públicas estão no caminho do desenvolvimento sustentável, e podem gerar a inclusão social, empregos e renda, "através de um mercado diferenciado e de forma competitiva".

Agencia Estado,

29 de julho de 2002 | 14h38

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