Astrônomos encontram berçários de estrelas "órfãs"

Três pesquisadores brasileiros e uma francesa são os protagonistas do primeiro caso confirmado de "adoção" estelar, registrado há 280 milhões de anos-luz da Terra.Na região do chamado Quinteto de Stephan - um aglomerado de cinco galáxias -, eles encontraram os primeiros berçários de estrelas nascidas no espaço intergaláctico, ou seja, fora do abrigo de uma galáxia.As formações são conhecidas como órfãos estelares. O estudo, publicado na última edição do The Astrophysical Journal, é a primeira grande descoberta realizada por brasileiros com o telescópio Gemini Norte, no Havaí, inaugurado em 1999."Até recentemente não se acreditava que fosse possível formar estrelas fora de galáxias", conta o astrônomo Laerte Sodré Júnior, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo. "Nosso trabalho é o primeiro a mostrar isso de forma convincente."Por acasoA descoberta foi feita por acaso, no ano passado, enquanto a equipe usava o Gemini Norte para estudar a formação de galáxias anãs dentro do Quinteto de Stephan. O aglomerado é famoso por suas colisões galácticas. "Uma galáxia pode arrancar um pedaço da outra e esse pedaço acaba formando uma galáxia menor", explica Sodré.Ao redor do Quinteto, também existe uma grande nuvem de hidrogênio. Quando faziam análises de espectrometria, os cientistas perceberam regiões da nuvem onde o gás estava ionizado, indicando atividade de formação estelar.Resolveram investigar mais a fundo e encontraram quatro berçários, cada um recheado de milhares de jovens estrelas.Evolução das galáxiasA descoberta dos "órfãos" - a 80 mil anos-luz do centro do Quinteto - "é algo que pode ter um impacto grande sobre o estudo da evolução das galáxias", avalia Sodré. A principal hipótese é a de que a nuvem foi expelida ao espaço por uma colisão de galáxias do Quinteto.Como esses novos berçários estelares se formaram depois no meio intergaláctico, entretanto, ainda é um mistério. Os pesquisadores acreditam que partes mais pesadas da nuvem tenham entrado em colapso e originado as primeiras estrelas, alguns milhões de anos atrás.O nosso Sol, em comparação, tem 4,5 bilhões de anos. "Ainda não sabemos quão comuns são essas formações, mas certamente são muito mais comuns do que poderíamos imaginar", diz Sodré. Também assinam o estudo os brasileiros Cláudia Mendes de Oliveira, do IAG, e Eduardo Cypriano, do recém-inaugurado observatório SOAR, e a francesa Chantal Balkowski, do Observatório de Paris.

Agencia Estado,

21 de abril de 2004 | 12h50

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