European Southern Observatory / AFP
European Southern Observatory / AFP

Em dia histórico, cientistas revelam primeira imagem de um buraco negro

Fenômeno – considerado um dos mais enigmáticos do universo – foi observado em galáxia a 55 milhões de anos-luz da Terra. Descoberta envolveu mobilização mundial de cientistas e dados captados por 8 radiotelescópios. ‘Vimos o impossível’, diz astrônomo

Gustavo Rojas, Especial para o Estado

10 de abril de 2019 | 10h56
Atualizado 10 de abril de 2019 | 23h47

PARIS -   Pesquisadores anunciaram nesta quarta-feira, 10, os resultados de um experimento de grande relevância para a ciência e que provavelmente vai ser lembrado daqui a cem anos: a primeira observação direta de um buraco negro, um dos fenômenos mais enigmáticos do universo. 

O anúncio, feito em cinco países pelos membros da colaboração do Telescópio do Horizonte de Eventos (EHT, na sigla em inglês), foi acompanhado com curiosidade por jornalistas e aficionados por astronomia. O feito só foi possível graças a mais de uma década de esforços coordenados de centenas de cientistas em institutos de pesquisa espalhados pelo globo.

A imagem mostra um círculo escuro no meio de um disco resplandecente. A observação utilizou a capacidade combinada de oito observatórios situados em algumas das regiões mais inóspitas do planeta, como o deserto do Atacama, o topo de um vulcão dormente no Havaí, e até mesmo o polo Sul.

“Vimos o que parecia ser impossível de ver”, comemorou Shep Doeleman, astrônomo do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian e diretor do grupo responsável pela captura da imagem. A existência desse buraco negro é investigada há mais de 25 anos, como mostra o Acervo Estadão

Os dados coletados pelos radiotelescópios foram sincronizados utilizando uma técnica desenvolvida nos anos 1970 chamada Interferometria de Base Muito Longa (VLBI), que permite obter imagens com detalhes iguais ao que seria possível com um telescópio do tamanho da Terra.

Ao contrário do que muitos esperavam, a imagem divulgada não veio do buraco negro do centro da nossa galáxia, a Via Láctea, mas de muito mais longe: do coração da galáxia gigante M87, a 55 milhões de anos-luz daqui. A posição dessa galáxia no céu permitiu que ela fosse observada por todos os observatórios de modo a se obter a resolução necessária para conseguir identificar a estrutura.

Mas o que a imagem mostra afinal? O buraco negro não emite luz. O que vemos é, na realidade, a sombra que ele provoca na sua vizinhança brilhante. Os raios de luz nas redondezas do buraco negro são desviados e distorcidos pelo seu intenso campo gravitacional. A fronteira do buraco negro, conhecida como horizonte de eventos, que marca o ponto onde nem a luz consegue escapar da gravidade, é 2,5 vezes menor que a sombra que projeta e mede 40 bilhões de km de um lado ao outro.

A imagem obtida pelo EHT é incrivelmente semelhante às simulações, um belo exemplo de concordância entre teoria e observação. A massa do buraco negro central de M87 é 6,4 bilhões de massas solares, mais de mil vezes a massa do buraco negro no centro da nossa galáxia.

Os resultados detalhados das observações foram publicados numa série de seis artigos científicos na renomada revista Astrophysical Journal Letters. 

Cientistas de todo o mundo devem passar os próximos dias analisando os resultados e trabalhando nas suas implicações. “Sabemos que deve haver algo a mais. Buracos negros são locais para procurar por respostas”, disse ao The New York Times o físico Avery Broderick, da Universidade de Waterloo, em OntÁrio, no Canadá. 

Kip Thorne, astrofísico do Instituto de Tecnologia da Califórnia e um dos ganhadores do Prêmio Nobel de Física de 2017 por seu trabalho na descoberta das ondas gravitacionais, elogiou o trabalho divulgado nesta quarta. “É maravilhoso ver a sombra quase totalmente circular do buraco negro. Não há dúvida de que realmente se trata de um buraco negro no centro da M87”, disse em e-mail ao jornal norte-americano. 

“Einstein deve estar totalmente orgulhoso. Sua teoria foi submetida a testes de grande intensidade e se sustentaram”, disse Priyamvada Natarajan, astrofísica da Universidade de Yale.

Jovem desenvolveu algoritmo-chave para a descoberta

Uma personagem importante da descoberta foi a jovem Katherine Bouman, de 29 anos, estudante de pós-doutorado no Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian. Foi ela que desenvolveu o algoritmo que montou a imagem divulgada nesta quarta. Para isso, trabalhou no projeto nos últimos seis anos. Ela foi uma entre os 30 cientistas que processaram os dados reunidos pelo Telescópio do Horizonte de Eventos. 

“Há um tempo, eu sequer sabia o que eram buracos negros. Meu interesse é sobre como podemos enxergar ou medir coisas que antes eram consideradas invisíveis para nós”, disse ao jornal The Washington Post.  /COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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