Tiago Queiroz/Estadão
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Fernando Reinach
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Atividade humana

Um grupo de cientistas conseguiu analisar o que aconteceu entre 1982 e 2016

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2018 | 03h00

Afirmar que habitamos o planeta Terra é um exagero. Na verdade, ocupamos uma finíssima casca do planeta, exatamente na interface entre a parte sólida e a parte gasosa. Essa casquinha se estende menos de um quilômetro abaixo e acima da superfície. Visto de longe nosso mundo é bidimensional. Por esse motivo, é possível saber grande parte do que o homem está fazendo com o planeta simplesmente sobrevoando e fotografando essa casca. Podemos fazer isso usando drones, aviões ou satélites. 

A resolução dessas câmeras permite observarmos detalhes de alguns centímetros de tamanho, como por exemplo, o aparecimento de uma flor. Mas, se desejamos saber o que esta acontecendo em toda a superfície da Terra, é necessário usar satélites para fotografar o planeta ano após ano. E isso vem sendo feito.

Os satélites estão melhorando muito. Hoje, os melhores são capazes de observar objetos de menos de 30 centímetros, mas a cobertura total do planeta por esses equipamentos só foi possível nos últimos anos. Determinar o que aconteceu nos últimos cem anos é impossível, pois em 1918 não existiam satélites. Agora, um grupo de cientistas conseguiu analisar o que aconteceu em todo o planeta entre 1982 e 2016. Em cada um desses anos, todo o planeta foi fotografado por satélites que usavam a tecnologia disponível no inicio da década de 1980. 

Essas imagens permitem analisar quadrados de aproximadamente 50 por 50 quilômetros. Isso quer dizer que casas ou pequenos desmatamentos dentro desses quadrados não podem ser individualizados, mas somente a média do que está presente em cada um desses 204 mil quadrados pode ser determinado. Mas, fazendo mapas do que aconteceu com cada um desses 204 mil quadrados ao longo de 35 anos, é possível ter uma boa ideia do que aconteceu no planeta. 

Cada quadrado foi classificado quanto a sua cobertura vegetal. Dada a baixa resolução, eles foram classificados como terra nua (sem vegetação, por exemplo, os desertos), terra com vegetação baixa (menos de cinco metros de altura, como plantações) e terra com cobertura florestal (mais de cinco metros). Os resultados são surpreendentes. Nesse período, a área total coberta por floresta na superfície da Terra aumentou 7,1%. 

Foram adicionados ao planeta 2,24 milhões de quilômetros quadrados de florestas. Isso foi possível porque todo o desmatamento nas regiões tropicais do planeta (Amazônia inclusive), que é facilmente detectado nos mapas do trabalho, foi compensado e superado por um aumento ainda maior das áreas de florestas na região subtropical. 

Além disso, as áreas sem cobertura vegetal diminuíram 3,1%, pois 1,16 milhão de quilômetros quadrados de área sem cobertura passou a ser coberta com plantações, principalmente na Ásia. Isso mais que compensou a expansão do Saara para o sul. Analisando com cuidado as áreas em que foi possível observar mudanças, os cientistas concluíram que 60% de todas as mudanças de cobertura vegetal nesses 35 anos foram causadas pela intervenção humana. Mas 40% delas ocorreram sem nossa influência.

No Brasil, os mapas mostram não somente a transformação do Cerrado em área agrícola, mas também o desmatamento do sul da região amazônica. Mas a boa notícia é que durante esses 35 anos houve um pequeno, mas significante, aumento da cobertura vegetal de mais de cinco metros na região da Mata Atlântica em quase todo o litoral do Brasil. 

Esses resultados demonstram que a intervenção humana existe em todos os continentes e está espalhada por praticamente toda a casca do planeta. Demonstram também que muitos estudos em que pequenas áreas são monitoradas e os dados extrapolados para o todo o planeta vão precisar ser revistos. E que existem mudanças positivas, além das negativas tão divulgadas. Seguramente, nas próximas décadas, esses estudos poderão ser refinados com o uso de satélites cada vez mais poderosos. É a superfície da Terra mudando aos poucos, sob as ações desses 7 bilhões de seres humanos e sua tecnologia. Vamos ver no que vai dar ou vamos tentar mudar o curso dessas mudanças?

MAIS INFORMAÇÕES: GLOBAL LAND CHANGE FROM 1982 TO 2016. NATURE, VOL. 560, PÁG. 641 (2018)

*É BIÓLOGO

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