Avanço do ecoturismo esbarra em acidentes

A Serra do Mar paulista é uma das maiores áreas de remanescentes contínuos de mata atlântica. Suas trilhas reservam uma vegetação riquíssima mas escondem labirintos para dezenas de turistas que lá se perdem. No ano passado, foram mais de 109 pessoas em 55 resgates realizados pelo Comandos e Operações Especiais (COE) da Polícia Militar. De cada dez ocorrências, sete foram em trilhas da Serra do Mar, tais como Paranapiacaba, Trilha das Torres, Taquaruçu e Casa de Pedra. Em 2001, houve 47 missões e 34 turistas resgatados. Em todo o Estado, aumentam os casos de acidentes relacionados ao turismo ecológico ou o de aventura. Nos últimos dois anos, em mais de 40 localidades diferentes houve registros de resgates. Há um número maior não notificado. O crescimento da atividade não se traduziu, até hoje, em melhores condições de segurança para quem pratica desde uma simples caminhada na mata até a descida de corredeira de rios em barcos infláveis. Diversas agências oferecem pacotes para esse tipo de turismo, mas nenhuma lei regulamenta a atividade. Poucas oferecem seguro de vida. Para quem se aventura a praticar por conta própria, os riscos são ainda maiores. Para o capitão do COE Reynaldo Simões Rossi, a imprudência e a falta de preparo dos turistas são a origem das situações de risco na natureza. "É duro dizer isso, mas a responsabilidade dos acidentes, na maioria das vezes, é do praticante", afirma. O grupo especial mantém uma equipe de 120 homens preparados para resgatar perdidos, escoltar e participar de operações em locais de alto risco. As operações de resgate são as mais demoradas por um motivo: em média para cada uma hora que se leva para chegar até a pessoa perdida, outras cinco são necessárias para tirá-la da mata. Despreparo Apesar de haver muito mais pessoas nas trilhas ou praticando o turismo de aventura nos feriados, o risco de acidentes é maior porque cresce o número de turistas despreparados. Muitos recorrem a agências, o que nem sempre se traduz em mais segurança. Elas não sofrem fiscalização alguma. "Não existe órgão para habilitar o guia ou os instrutores. E o público brasileiro vai em cima do preço. Economiza R$ 10 ou R$ 20 e arrisca a vida desnecessariamente", alerta o presidente da Associação Brasileira de Canyonismo, Carlos Zaith. Dois anos se passaram e até hoje o economista Estevan de Souza Routman, de 26 anos, tem dúvidas sobre a morte de seu irmão Gustavo. Os dois e um grupo de amigos estavam na Cachoeira do Saltão, em Itirapina, praticando o canyonismo - uma descida de cachoeiras por meio de cordas. Estavam acompanhados de instrutores de uma agência de ecoturismo. "Não havia ninguém na corda de segurança, lá embaixo. Um amigo disse que só viu meu irmão despencando". A queda era de 75 metros. "Lembro que peguei ele no colo e tentei uma respiração boca-a-boca. As pessoas ao meu lado só choravam." A investigação policial não chegou a nenhum responsável pelo acidente. Para a presidente da ONG Férias Vivas, Silvia Maria Basile, a maioria dos turistas nem cogita a hipótese de que possa ocorrer algum tipo de acidente em uma atividade de lazer. "No caso dos esportes de aventura, elas acham que a adrenalina é o mais importante. Mas é muito diferente o risco controlado do risco inconsciente." Apesar de ter 14 anos de experiência na organização de caminhadas esportivas, o empresário Bêni Becker, de 37 anos, já foi vítima do descuido e cita um episódio para alertar aos iniciantes. Em 2000, ele e dois amigos foram conhecer a trilha que faria parte de uma prova do dia seguinte. No meio do caminho, encontraram um cão que os acompanhava. Num dado trecho, tiveram de recuar porque era impossível levar o animal. O dia escureceu e, sem lanternas, a solução foi cada um ceder suas camisas para servirem de tochas. "Evitamos um acidente porque éramos experientes. Mas muitos se arriscam demais e vão por conta própria praticar algo que nunca fizeram antes."

Agencia Estado,

13 de abril de 2003 | 13h22

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