Muhsin Özel, Gudrun Holland, Rolf Reissbrodt/RKI
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Bactéria da peste negra já infectava humanos há 4.800 anos

Sequenciamento de DNA aponta que ela pode ter sido responsável pela praga de Justiniano e pela peste de Atenas

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2015 | 22h09

Conhecida por provocar a peste negra, que dizimou quase metade da população da Europa no século 14, a bactéria Yersina pestis já infectava humanos desde a Idade do Bronze, há 4.800 anos, de acordo com um novo estudo publicado nesta quinta-feira, 22, na revista Cell. A data é cerca de 3.300 anos anterior ao registro mais antigo confirmado de infecção pela bactéria.

Cientistas já haviam confirmado anteriormente que, além da peste negra, a bactéria também foi responsável pela praga de Justiniano, que devastou todo o mundo conhecido durante o Império Bizantino, há cerca de 1.500 anos, matando 50 milhões de pessoas. Mas até agora não haviam sido registradas infecções anteriores. 

No novo estudo, os pesquisadores sequenciaram o DNA de amostras de dentes de 101 indivíduos que viveram na Idade do Bronze – de 3.000 a.C. a 1.500 a.C. – na Europa e na Ásia. Sete deles foram infectados pela Yersina pestis, por volta do ano 2.800 a.C. Segundo os autores do estudo, isso significa que a mesma bactéria pode ter sido responsável pela famosa peste de Atenas, que matou 25% da população ateniense durante a Guerra do Peloponeso, a partir de 430 a.C., quando a cidade-Estado se encontrava sitiada pelos espartanos.

“Descobrimos que a linhagem da Yersina pestis se originou e se espalhou muito antes do que pensávamos e agora temos uma ideia bem mais precisa de quando ela se desenvolveu. Esse estudo muda nossa visão sobre como a peste influenciou as populações humanas e abre novas vias para o estudo da evolução das doenças”, disse um dos autores, Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca.

Segundo os pesquisadores, o estudo indica também que, embora a peste já existisse há 4.800 anos, foi preciso pelo menos mais um milênio até que a bactéria adquirisse um gene que permitisse sua sobrevivência no interior do organismo das pulgas, tornando-a capaz de se espalhar entre humanos usando o inseto. “O gene, no entanto, estava presente no genoma da bactéria em um indivíduo da Idade do Ferro. Isso sugere que a peste se tornou transmissível por pulgas em um período entre 3.700 e 3 mil anos atrás”, disse Willerslev.

Trabalhos recentes coordenados por Willerslev e por Kristian Kristiansen, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, levantaram a hipótese de que a peste pode ter dado forma às populações humanas ao longo dos milênios. Há alguns meses, eles publicaram um estudo genômico de indivíduos da Idade do Bronze e mostraram que o período foi altamente dinâmico, envolvendo migrações de grande escala, que deram forma à maior parte da estrutura demográfica atual de Europa e Ásia. 

A razão dessas migrações, no entanto, não estava clara. “Um dos cenários que discutimos foi a ideia de que grandes epidemias pudessem ter impulsionado essa dinâmica”, disse outro dos autores do novo estudo, Morten Allentoft, da Universidade de Copenhague.

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