Luecke / Universidade do Texas em Austin
Luecke / Universidade do Texas em Austin

Bactérias e câncer

Bactérias estão envolvidas em grande parte dos tumores no intestino grosso

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2017 | 03h00

Quando eu era jovem, muitos sofriam com úlceras estomacais. São uma espécie de buraco que se forma na parede interna do estômago. Doíam, causavam incômodo e, em alguns casos, perfuravam. Se acreditava que eram resultado de uma corrosão na parede do estômago pelo excesso de suco gástrico, muito ácido. As pessoas afetadas viviam chupando pastilhas de antiácidos, engolindo copos de leite e tentando levar uma vida mais tranquila, pois o estresse levaria ao aumento da acidez e ao aparecimento de úlceras. Hoje tudo isso é passado. 

Em 1982, dois cientistas australianos descobriram que uma bactéria que habita o estômago da maioria das pessoas é a causa principal das úlceras. Hoje, se um médico desconfia que você está desenvolvendo úlcera, receita antibiótico e tudo se resolve. 

O interessante dessa descoberta é que nunca os cientistas imaginavam que uma úlcera estomacal pudesse ser causada por uma bactéria. Agora um grupo de pesquisadores descobriu que bactérias estão envolvidas em grande parte dos casos de câncer do intestino grosso, algo tão inesperado quanto o envolvimento delas na úlcera estomacal.

Os tumores colorretais surgem na parede interna do intestino, a superfície que fica em contato com as fezes. É um ambiente em que a quantidade de bactérias é enorme e, por isso, a presença de bactérias nos tumores já é conhecida faz tempo. Com a progressão da doença, esses tumores se espalham pelo corpo – as metástases. O processo de formação de metástases é complexo, mas basicamente o que acontece é que algumas células do tumor original se soltam, caem em um vaso sanguíneo e são levadas a outras partes do corpo. No caso específico desses tumores, as metástases aparecem com frequência no fígado. Chegando no fígado, as células tumorais continuam a se dividir e formam um novo tumor e, assim, o câncer se espalha pelo corpo. Por isso, o tratamento precoce é importante: é preciso remover o tumor original antes que ele tenha chance de soltar células e formar metástases.

Muitos cientistas se dedicam a comparar metástases com tumores primários. Foi assim que descobriram a presença de bactérias nas metástases, principalmente as de um grupo chamado Fusobacterium. A presença de bactérias intestinais em metástases significa que essas bactérias, que normalmente só ocorrem no intestino, migraram junto com as células tumorais durante a formação das metástases. Estudando em detalhe esse fenômeno, se descobriu que ele é muito frequente, chegando a ocorrer em mais de 80% dos casos. Além disso, viram que, se as bactérias estão ausentes no tumor original, também não estão nas metástases; já quando estão presentes no tumor original, aparecem nas metástases. Mais que isso, comparando o genoma das bactérias extraídas das metástases descobriram que elas são da mesma cepa presente no tumor original. 

Mas será que as bactérias estão envolvidas no progresso da doença ou são levadas junto por acaso? Para investigar isso, cientistas coletaram pedaços de metástases humanas que continham as bactérias e inocularam em camundongos. O resultado é claro. As bactérias continuam se espalhando junto com as células tumorais, mesmo que se passe o tumor de um camundongo para outro, sequencialmente, várias vezes. 

E então foi feito o experimento mais interessante. Trataram os camundongos acometidos por tumores derivados de metástases humanas com um antibiótico que mata rapidamente essas bactérias. Novamente o resulto é claro: os tumores, agora sem bactérias, passam a crescer mais lentamente, mas não morrem ou deixam de crescer. Não é uma cura. Esse resultado demonstra que, de algum modo, essas bactérias auxiliam as células tumorais a crescer. Você mata as bactérias e as células tumorais crescem mais lentamente (ao menos em camundongos).

Esse resultado, totalmente inesperado, abre nova direção no esforço de controlar o câncer. O novo caminho é promissor. Se úlceras estomacais são curadas pela eliminação das bactérias, há esperança que algo dessa natureza ocorra com tumores de intestino grosso. Ainda é cedo, mas é uma possibilidade.

MAIS INFORMAÇÕES: ANALYSIS OF FUSOBACTERIUM PERSISTENCE AND ANTIBIOTIC RESPONSE IN COLORECTAL CANCER. SCIENCE, VOL. 358, PÁG. 1443 (2017)

* FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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