Bahia vai usar células-tronco para tratar Chagas

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) da Bahia testará, pela primeira vez no mundo, um método inédito para tratar vítimas da doença de Chagas. Em março, os médicos vão realizar o implante de células-tronco no coração de 20 doentes. O objetivo é tentar regenerar os músculos cardíacos destruídos pelo parasita de Chagas.Coordenada pelo Instituto do Milênio, que reúne 90 doutores de todo o Brasil que se dedicam a pesquisas com células-tronco, a experiência vai tentar reproduzir em seres humanos os ótimos resultados obtidos em estudos com camundongos realizados pela Fiocruz baiana.Nos ratos, as células-tronco foram retiradas da medula e implantadas no coração. Elas conseguiram controlar a inflamação e a fibrose provocadas pelo Trypanosoma cruzi, o parasita que causa a doença de Chagas. "Esperamos repetir esses bons resultados", afirma o professor titular aposentado da Universidade de São Paulo Ricardo Ribeiro dos Santos, coordenador da pesquisa.A célula-tronco leva esse nome exatamente por causa de sua capacidade de, como um tronco de árvore, se expandir e se transformar em células de diferentes tecidos, como o ósseo, nervoso, muscular e outros. O transplante dessas células de uma parte sadia do corpo para a área destruída por uma doença conseguiria sanar o problema, restaurando o órgão afetado.Os médicos vão retirar células-tronco da medula óssea e reintroduzi-las na coronária dos doentes. O procedimento é feito em apenas algumas horas. As células são retiradas da medula com um tipo especial de seringa, separadas e reinjetadas no organismo. Pela corrente sangüínea, elas migram para o coração e assumem a função de músculo.Os 20 doentes estão sendo selecionados. O experimento foi marcado para março porque os médicos esperam os resultados de uma pesquisa semelhante feita com ratos e que deve ficar pronta no início do ano.EnfartadosOutra experiência com doentes cardíacos acabou de ser feita pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - que também faz parte do Instituto do Milênio - para tentar curar os que estão à beira de um enfarte, com o coração prestes a parar de funcionar.Quatro pacientes sofreram implantes de células-tronco dias antes do Natal. Cada um recebeu 20 injeções de células-tronco, retiradas de suas medulas, em toda a região enfartada (onde os músculos não funcionam mais).Foi a primeira experiência desse tipo na América Latina. Testes semelhantes ocorreram na Alemanha, Estados Unidos e Japão. Todos com resultados positivos, conseguindo recuperar os pacientes cardíacos.Os pesquisadores da UFRJ afirmam que só em fevereiro poderão analisar os efeitos do experimento. Se tiver sucesso, o novo método deverá ser repetido em outros doentes. "Temos certeza de que, se não fizer bem, mal não vai fazer, porque essa técnica não tem efeito colateral. Na pior das hipóteses, nada acontece", afirma Santos, que também participou desse estudo.Os experimentos da Fiocruz e da UFRJ fazem parte de protocolos de pesquisa aprovados por comissões de ética e que deverão ser publicados em jornais científicos especializados.Em nenhum deles, no entanto, há o tradicional grupo de controle, formado por pacientes que não fazem o tratamento e com os quais são comparados os resultados. Isso ocorre porque os testes só estão sendo feitos com pessoas em estado grave, que já esgotaram todos os tratamentos disponíveis para a cura de suas doenças.

Agencia Estado,

01 de janeiro de 2002 | 20h26

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