Maddie McGarvey/The New York Times
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Bambi com covid

A novidade é que o SARS-CoV-2 se espalhou entre os veados. Em Ohio, estudos sorológicos mostraram que 40% deles já foram infectados pelo coronavírus

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2022 | 05h00

O veado mais famoso é o de rabo branco, o Odocoileus virginianus. Walt Disney se inspirou nele para criar Bambi, o personagem que, quando perdeu a mãe em um incêndio florestal, fez a minha geração chorar. Atualmente existem 30 milhões deles nos Estados Unidos circulando nas matas e nos arredores das cidades. Sem predadores, a população vem crescendo.

A novidade é que o SARS-CoV-2 se espalhou entre os veados. No Estado de Ohio, estudos sorológicos mostraram que 40% deles já foram infectados pelo coronavírus. E mais, no fim de 2021, um levantamento feito em oito pontos do Estado mostrou que 36% de 360 animais testaram positivo por PCR, indicando que estavam espalhando o coronavírus naquele momento. 

Essa descoberta aconteceu quando cientistas testaram veados abatidos em um programa de controle populacional realizado em Ohio. Ou seja, entre os veados está em andamento uma pandemia similar à que nos afeta. Em 15 dos animais infectados, o vírus que estava presente foi sequenciado. Foi possível demonstrar que as mesmas cepas que circulam entre humanos circulam também entre os veados. 

Além disso, foi possível deduzir que houve pelo menos quatro eventos independentes de transmissão do vírus de seres humanos para os veados. Foram esses eventos que iniciaram a pandemia que agora cresce à medida que um veado transmite o vírus para outros.

Essa descoberta não é mera curiosidade, mas tem importantes implicações para o futuro da covid-19 entre os humanos. O coronavírus “pulou” de um animal (provavelmente um morcego) para os seres humanos no fim de 2019 e se espalhou pelo mundo. 

Depois disso, o vírus foi encontrado em diversos animais domésticos e em zoológicos, mas em todos esses casos ele parece não conseguir se espalhar de um indivíduo para outro, o que impede que tenhamos uma pandemia entre cães ou gatos, por exemplo. Por esse motivo, até agora os cientistas só precisavam se preocupar com as novas cepas que aparecem em populações humanas. 

Mas, quando um vírus encontra um segundo hospedeiro, ele passa a evoluir independentemente nesse segundo animal, e novas cepas podem aparecer nesses animais. Essas cepas podem, no futuro, infectar também os seres humanos.

Vírus que são capazes de infectar mais de um hospedeiro são muito mais difíceis de serem controlados, como é o caso da febre amarela, que recentemente reapareceu em macacos na zona norte da capital paulista e infectou seres humanos. Com essa descoberta, o SARS-CoV-2 passa a pertencer ao grupo de vírus com mais de um hospedeiro e agora conta com pelo menos dois mamíferos em que pode evoluir, sendo que um deles é um animal pelo qual temos grande carinho.

INFORMAÇÕES: SARS-COV-2 INFECTION IN FREE-RANGING WHITE-TAILED DEER. NATURE HTTPS://DOI.ORG/10.1038/S41586-021-04353-X 2022

* É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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