Base da Antártida pesquisa clima e pesca no Brasil

O capitão-de-mar-e-guerra Antônio da Costa Guilherme, chefe da Estação Comandante Ferraz, lê a ordem do dia. ?O Brasil é um país antártico??, pergunta, lembrando um velho dilema geopolítico, que soa curiosamente atual, depois de 20 anos de presença brasileira na Antártida. Na sexta-feira, dia da celebração do aniversário, até o sol parecia ter uma resposta: depois de uma semana nevando, a temperatura se elevou a ?tórridos? 5°C, com 0°C de sensação térmica. De longe o dia mais quente do verão.O ministro da Defesa, José Viegas Filho, e os comandantes das três Forças Armadas vieram se juntar ao grupo de 12 pesquisadores e 10 marinheiros para celebrar o 20.° aniversário da base. Cantaram o Hino Nacional, ouviram a ordem do dia e depois entraram na sala principal da estação, para uma confraternização regada a vinho, cerveja e refrigerante.Revezamento de cientistasA estação brasileira, composta de 64 contêineres de aço, tem capacidade para acomodar 46 pessoas ? das quais dez são pessoal de suporte da Marinha, em missões que duram um ano. Cerca de 130 cientistas se revezam durante o ano na estação, realizando pesquisas em áreas como Biologia, Oceanografia, Geofísica, Astronomia e Meteorologia.Na véspera do aniversário, 24 voltaram para suas cidades, onde continuam as pesquisas, em laboratórios das universidades. Alguns vêm de avião e helicóptero, nas sete missões anuais da FAB. Outros, no Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rangel, que costuma partir todos os anos do Rio no fim de outubro ou início de novembro, levando duas semanas para chegar à Ilha Rei George, onde fica a estação, e volta em fevereiro ou março, quando termina o verão.Controlador do climaUma das linhas de pesquisa mais importantes é sobre como a Antártida influi sobre o clima do Brasil. ?A Antártida é o principal controlador do clima do Hemisfério Sul, é tão importante quanto a Amazônia?, diz Jefferson Simões, coordenador de pesquisa.A influência das massas de ar frio que saem da Antártida não é representada de maneira adequada no modelo meteorológico brasileiro, o que prejudica a capacidade de previsão do tempo. Ao contrário do que se costuma dizer, as frentes frias que chegam ao Brasil não são massa de ar ?polar?, mas se formam na periferia da Antártida, geralmente no Mar de Armundsen, diz Simões.Ozônio e pescaOutra coisa que os cientistas estão investigando é o impacto do aumento da radiação ultravioleta sobre os microrganismos que vivem no oceano e fazem parte da cadeia alimentar, influindo na quantidade de pesca na costa brasileira. Essa radiação tem aumentado por causa do buraco na camada de ozônio sobre os pólos Sul e Norte.Os pesquisadores já sabem que os efeitos do aquecimento da Terra são mais drásticos na Antártida - cuja temperatura média subiu três graus nos últimos 50 anos, enquanto no planeta todo o aumento foi de 0,6 grau em 100 anos.Plataforma desfeitaA 300 quilômetros da estação brasileira, no Mar de Larseng, uma plataforma de gelo de 15 mil quilômetros quadrados, com até 250 metros de espessura, se desfez. Por ser uma plataforma flutuante, essa desintegração não afetou o nível do mar.Mas há geleiras que se desprendem do continente e que afetam esse nível. Os pesquisadores querem verificar o grau de influência das mudanças climáticas sobre o movimento dessas geleiras. ?As mudanças têm sido muito abruptas nos últimos 10 a 15 anos?, diz Simões. E elas afetam diretamente o Brasil. leia também A rotina de frio e isolamento num cenário fascinante Centro sofre com falta de recursos para logística

Agencia Estado,

09 de fevereiro de 2004 | 11h54

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