Bebê neandertal tinha cérebro de tamanho humano ao nascer

O órgão crescia rápido depois do parto; cientiosta diz que não se pode afirmar qual a espécie mais inteligente

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

08 de setembro de 2008 | 18h04

Neandertais nasciam com cérebros com o tamanho aproximado do de um bebê humano contemporâneo, fazendo suas mães experimentarem o mesmo tipo de dificuldade no parto que atinge as mulheres humanas de hoje. Mas, uma vez fora do útero, o cérebro da criança neandertal crescia a uma taxa superior à humana. Esses resultados, obtidos a partir da análise dos fósseis um bebê neandertal recém-nascido e de dois neandertais jovens - com menos de dois anos - aparecem na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).   A despeito dessas descobertas não é possível afirmar que os neandertais - que não são ancestrais diretos do homem moderno, mas uma espécie paralela, que coexistiu com a nossa e se extinguiu há cerca de 30 mil anos - atingissem  um grau de inteligência superior ao humano, diz a principal autora do trabalho, Marcia Ponce de León, da Universidade de Zurique. "Não podemos dizer nada a respeito que tenha valor científico", afirma.   "Os neandertais tinham uma taxa de crescimento cerebral maior, mas eles também tinham de atingir um tamanho final maior para o cérebro, e por isso levavam o mesmo tempo que um humano moderno. É como se eles tivessem um carro mais rápido, mas também precisassem ir mais longe", explica.   O artigo na PNAS especula sobre o impacto do tamanho do cérebro do recém-nascido e do adulto na evolução da espécie humana e de suas "primas", e sugere que o tamanho médio do cérebro ao nascer, no homem moderno e no neandertal, de cerca de 400 centímetros cúbicos (400 mililitros), pode representar um limite máximo, imposto pela anatomia da fêmea, e já presente no último ancestral comum entre as duas espécies.   Por conta disso, Marcia diz que é improvável que dificuldades no parto, causadas pelo grande tamanho do cérebro, tenham tido um papel na extinção do neandertal. "Os problemas são parecidos para as duas espécies", diz, referindo-se a neandertais e humanos. "É verdade que o recém-nascido neandertal tinha uma cabeça um pouco maior, mas a pélvis da fêmea era um pouco maior, também".   O trabalho levanta, ainda, a hipótese de que uma taxa mais alta de crescimento cerebral entre o nascimento e a idade adulta, resultando um cérebro adulto maior que o da humanidade contemporânea, fosse uma característica comum ao homem de neandertal e aos primeiros humanos, herdada de um ancestral comum. Se isso for verdade, então o cérebro humano encolheu ao longo da evolução.   "Propomos essa idéia para reflexão", diz Marcia. "A evolução não exige que o Homo sapiens (ser humano) de hoje seja o mais esperto de todos os tempos, mais esperto do que era há 50 mil anos, por exemplo. Talvez um emburrecimento tenha sido favorecido pela evolução, ou tenhamos adotado uma 'estratégia laptop', com cérebros menores, mas mais eficientes".   Segundo ela, "sabemos que o Homo sapiens primitivo estava mais próximo do tamanho do cérebro do neandertal que o Homo sapiens de hoje. Portanto, o debate sobre qual espécie foi (ou é) mais esperta não tem fundamento empírico e pode ser levado a níveis absurdos".

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