Bento 16 deixa Vaticano e promete obediência ao novo papa

O papa Bento 16 deixou o Vaticano nesta quinta-feira e prometeu obediência incondicional a quem lhe suceder para guiar a Igreja Católica em um dos períodos mais assolados por crises nos 2.000 anos de história.

PHILI, Reuters

28 Fevereiro 2013 | 16h09

O primeiro papa a renunciar em seis séculos, Bento voou em um helicóptero branco da força aérea italiana para a vila papal de verão ao sul da capital, onde ele vai morar temporariamente.

Os sinos badalaram na Basílica de São Pedro e em igrejas por toda Roma enquanto o helicóptero circulava a Cidade do Vaticano, sobrevoava o Coliseu e outros monumentos para dar ao pontífice uma última visão da cidade onde ele também é bispo.

"Como vocês sabem, hoje é um dia diferente dos outros. Eu serei o supremo pontífice da Igreja Católica até as 20h (16h de Brasília)", disse ele a uma multidão emocionada e eufórica na pequena cidade de Castel Gandolfo em seu último comentário público como papa.

"Depois disso, serei apenas um peregrino que está começando a última fase de sua peregrinação nesta Terra."

Ele se virou e entrou na vila, para nunca mais ser visto como papa.

Em um adeus emocionado aos cardeais na manhã de quinta-feira, na Sala Clementina repleta de afrescos do Vaticano, Bento apareceu para enviar uma forte mensagem ao escalão superior da Igreja e aos fiéis para que permaneçam unidos em torno de seu sucessor, seja ele quem for.

"Vou continuar a estar perto de vocês em oração, especialmente nos próximos dias, de modo que vocês aceitem plenamente a ação do Espírito Santo na eleição do novo papa", disse ele aos cardeais na sala Clementina do Vaticano.

"Que o Senhor possa mostrá-los o que Ele quer. Entre vocês, há o futuro papa, a quem hoje declaro minha reverência e obediência incondicional", afirmou.

A promessa, feita antes do conclave a portas fechadas em que os cardeais elegerão o novo papa, foi importante porque, pela primeira vez na história, haverá um papa reinante e um ex-papa vivendo lado a lado no Vaticano.

Bento parecia estar enviando uma forte mensagem aos escalões superiores da Igreja, bem como aos fiéis, para permanecerem unidos em apoio a seu sucessor, seja ele quem for.

Alguns estudiosos da Igreja temem que se o próximo papa desfizer algumas das políticas de Bento 16 enquanto seu antecessor ainda estiver vivo, Bento poderia atuar como um para-raios para os conservadores e polarizar a Igreja de 1,2 bilhão de membros.

Antes de subir no helicóptero, o papa Bento disse adeus a monsenhores, freiras, empregados do Vaticano e a guarda suíça no pátio San Damaso do palácio apostólico da Santa Sé. Muitos de seus funcionários tinham lágrimas nos olhos quando o helicóptero partiu.

Enquanto o helicóptero decolava, ele enviou sua última mensagem no Twitter: "Obrigado por seu amor e apoio. Que vocês sempre experimentem a alegria que advém de colocar Cristo no centro de suas vidas".

Bento vai passar os primeiros meses de sua aposentadoria na residência de verão papal, Castel Gandolfo, um complexo de vilas com jardins exuberantes, uma fazenda e paisagens deslumbrantes do Lago Albano na cratera vulcânica abaixo da cidade.

Às 20h (16h no Brasil), o papado estará oficialmente vago e dois Guardas Suíços que cerimoniosamente vigiam a vila de verão partirão e não voltarão até que um novo papa tome posse da residência no topo da colina.

Bento ficará ali até abril, quando a reforma estiver completa em um convento no Vaticano que será sua nova casa.

PROBLEMAS PAPAIS

Junto aos cardeais Bento, vestindo a batina branca papal e a capa vermelha que ele deixará de usar após a oficialização da renúncia, insistiu que a Igreja se esforce para ser "profundamente unida".

Amante da música clássica, ele comparou a hierarquia da Igreja a uma orquestra com muitos instrumentos que devem sempre procurar ser harmoniosos.

"Vamos permanecer unidos, queridos irmãos", disse Bento 16, que fez alusão aos escândalos e relatos de disputas internas entre seus assessores mais próximos.

"Nesses últimos oito anos temos vivido com fé momentos bonitos de luz radiante no caminho da Igreja, bem como momentos em que algumas nuvens escureceram o céu", declarou ele.

O papa disse que "tentou servir a Cristo e à sua Igreja com amor profundo e total".

NOVO PAPA PARA A PÁSCOA

Assim que a cadeira de São Pedro estiver vaga, cardeais de vários países do mundo vão começar a planejar o conclave que vai eleger o próximo papa.

Uma das primeiras perguntas que estes "príncipes da Igreja" enfrentam é quando os 115 cardeais eleitores devem entrar na Capela Sistina para a votação. Eles vão realizar uma primeira reunião na sexta-feira, mas a decisão não deve ocorrer até a próxima semana.

O Vaticano parece ter como objetivo uma eleição até meados de março para que o novo papa possa ser empossado antes do Domingo de Ramos, em 24 de março, e conduzir os serviços da Semana Santa que culminam na Páscoa no domingo seguinte.

Com a eleição do próximo papa ocorrendo na esteira de escândalos de abuso sexual, vazamentos de documentos privados do papa, queda no número de fiéis e exigências de um papel maior para as mulheres, muitos na Igreja acreditam que seria benéfico uma cara nova vinda de um país fora da Europa.

Alguns cardeais de países em desenvolvimento, incluindo o brasileiro dom Odilo Scherer, Peter Turkson, de Gana, e Antonio Tagle, das Filipinas, são nomes frequentemente citados como principais candidatos do mundo em desenvolvimento.

Não existem candidatos oficiais, nenhuma campanha aberta e nenhum claro favorito ao posto. Cardeais apontados como favoritos por observadores do Vaticano incluem também o canadense Marc Ouellet, o italiano Angelo Scola e o norte-americano Timothy Dolan.

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