Andrew Medichini/AP Photo
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Bento XVI já dava sinais da renúncia

Apesar de surpreender outros religiosos, decisão é vista como ‘direito’ pelo Vaticano

Jamil Chade, de O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2013 | 21h56

CIDADE DO VATICANO - O anúncio do papa Bento XVI de que irá renunciar obriga o Vaticano a buscar um novo pontífice pela segunda vez em menos de uma década e abre um debate sobre o futuro da Igreja. Alegando não ter energia e condições físicas e mentais para comandar a Igreja diante dos desafios do século 21, Bento XVI é o primeiro em 600 anos a renunciar.

A decisão foi anunciada nesta segunda-feira, 11, em latim pelo próprio papa, em uma reunião do conselho de cardeais. O pontificado que começou em 2005 com a morte de João Paulo II termina às 20 horas (horário de Roma) de 28 de fevereiro. O conclave será convocado e deve determinar um novo papa antes da Páscoa.

Seu irmão, Georg Ratzinger, admitiu que o pontífice há meses vinha trabalhando para anunciar a renúncia e que nada ocorreu por acaso. Em entrevista aos jornais alemães, disse ser um "processo natural". "Meu irmão queria repouso nos seus últimos anos", disse. Segundo ele, seu médico já o havia aconselhado a não mais viajar para fora da Europa. "A idade oprime", constatou.

Com 85 anos, Bento XVI não teria nenhuma doença mais grave, e o Vaticano fez questão de excluir ontem a possibilidade de uma depressão. Entre as embaixadas junto ao Vaticano, a reação foi de surpresa. "Os embaixadores estão perplexos", declarou ao Estado o embaixador do Brasil junto à Santa Sé, Almir Franco de Sá Barbuda.

"Ficamos de boca aberta. As pessoas não se moviam", comentou o religioso mexicano Oscar Sanchez Barba, de Guadalajara.

Mas pessoas que o acompanham apontam que Bento XVI deu sim algumas pistas. Com dificuldades para andar, passou a usar o bastão que era de João Paulo II. Em recente reunião, declarou que se ele não fosse ao Rio de Janeiro para a Jornada da Juventude, "o próximo papa" iria. Em 2010 disse que, no momento que não se sentisse capaz física e psicologicamente, renunciaria.

O Vaticano fez questão de apresentar a notícia com um ar de certa normalidade. Seu porta-voz, Federico Lombardi, disse que papas têm "o direito e até o dever" de renunciar nesses casos. E que não há nada nas leis canônicas que o impeça disso, desde que seja livremente e de forma consciente. Para Lombardi, foi uma decisão "de grande coragem", e o papa não estaria temendo um cisma na Igreja por conta do vácuo de poder.

Para pessoas próximas ao Vaticano, Bento XVI sofreu ao lado de João Paulo II por anos sua doença e já havia indicado que não iria permitir que o mesmo ocorresse com ele, justamente para permitir que a Igreja possa continuar exercendo seu papel. Se João Paulo chegou a pensar em renunciar, nunca assumiu: "Da cruz não se desce", disse.

No domingo, Bento se manifestou no Twitter: "Devemos ter confiança na força da misericórdia de Deus. Embora sejamos todos pecadores, a sua graça nos transforma e renova."

Futuro. A renúncia inicia um debate sobre o que deve ser a instituição no novo milênio e quem deve ser escolhido para comandar uma instituição de 2 mil anos que se vê confrontada com a queda de fiéis e críticas de que não conseguiu acompanhar as mudanças da sociedade. Bento XVI foi claro em várias ocasiões: não é a Igreja que deve mudar, já que a doutrina não muda.

Seus críticos dizem que a renúncia e o calendário de dois meses até a eleição foram montados para permitir que a ala mais conservadora da Igreja tenha tempo para influenciar nos bastidores e evitar uma "revolução" de cardeais mais novos.

Para o editor-chefe do jornal La Repubblica, Ezio Mauro, a renúncia é, no fundo, uma erupção de modernidade na Igreja.

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