Berlim recebe papa com elogios e protestos

Os alemães contrários aos ensinamentos do papa sobre sexualidade e revoltados com os casos de abusos cometidos por padres protestaram em Berlim nesta quinta-feira, enquanto membros do Parlamento boicotaram um discurso do pontífice no início de uma visita de quatro dias de Bento 16 a seu país.

ALEXANDRA HUDSON, REUTERS

22 Setembro 2011 | 17h54

O papa encontrou a chanceler Angela Merkel, lideranças políticas e autoridades judaicas, e recebeu aplausos calorosos durante um discurso ao Parlamento no prédio do Reichstag, uma honra rara.

Mas cerca de 100 deputados no Parlamento de 620 assentos boicotaram seu discurso, o que provocou debates fervorosos entre o povo alemão sobre a separação de Igreja e Estado.

Cerca de 8.000 pessoas que se opõem às posições conservadoras de Bento 16 sobre a sexualidade e os escândalos dos padres pedófilos protestaram no centro de Berlim, carregando cartazes escritos "Vá para casa, papa" e "Menos religião = mais direitos humanos".

O papa ainda ouviu críticas de um líder judaico que no passado tinha elogiado os esforços de Bento para melhorar as relações entre cristãos e judeus. O líder comunitário alertou ao papa que os judeus ficariam feridos se o papa do período da guerra Pio 12 fosse beatificado.

O pontífice nascido na Baviera terminou o dia com uma missa para 70 mil pessoas, que rezaram sob chuva no Estádio Olímpico da cidade.

Bento começou a viagem com um apelo aos alemães para não deixarem a Igreja por causa dos escândalos de abuso sexual, que levaram um recorde de 181 mil fiéis a abandonarem o catolicismo em protesto no ano passado.

"A Igreja é uma rede do Senhor, que pesca os peixes bons e peixes ruins", disse ele, usando uma imagem do evangelho de Jesus como um pescador. Mas isso não foi o bastante para acalmar os manifestantes mantidos a uma distância segura por uma presença policial repressiva no centro de Berlim.

"Isso é incrivelmente arrogante, mostra que ele não é deste mundo", disse o manifestante Dirk Friedrich, de 62 anos, que cresceu em um orfanato católico onde ele afirmou que os abusos violentos eram frequentes.

"Foi a Igreja e este papa que permitiram que todos os abusos fossem varridos para debaixo do tapete", disse Friedrich, na Potsdamer Platz de Berlim, onde alguns cartazes de protestos diziam "Melhor Deus sem uma Igreja do que uma Igreja sem Deus".

Mas dezenas de milhares de católicos lotaram o estádio, incluindo centenas de peregrinos da vizinha Polônia vestindo longas capas vermelhas com uma cruz e a imagem de Cristo.

"Nós amamos ele e quisemos mostrar que, enquanto há aqueles que protestam, há tantas pessoas que o amam", disse a polonesa de 23 anos Anna Ogorzalek, que viajou 10 horas de ônibus.

"Durante décadas nós tivemos um momento difícil como católicos no comunismo da Alemanha Oriental, por isso é realmente ótimo que Bento tenha vindo para nos ver", disse a enfermeira de 50 anos Walburga Treibmann, do Estado de Brandenburgo, perto de Berlim.

A Igreja na Alemanha recebeu quase 600 pedidos de indenização das vítimas de abuso sexual e físico, enquanto uma associação de vítimas estima que mais de 2.000 pessoas foram maltratados por padres católicos nas últimas décadas.

Bento 16 disse entender que as pessoas estejam "escandalizadas por esses crimes", mas exortou os católicos a permanecer na Igreja enquanto a instituição trabalha para corrigir os erros cometidos em suas fileiras.

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