GECKOS RACE ACROSS THE WATER’S SURFACE USING MULTIPLE MECHANISMS/Reprodução
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Bicho que corre na água

Cientistas observaram que a lagartixa combina diferentes truques. O principal é bater verticalmente na superfície da água com as patas dianteiras, retirando a pata da água antes de afundar muito

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2018 | 03h00

Lagartixas são um prazer de observar. Não só andam em superfícies verticais lisas, mas são extremamente rápidas. Agarram a presa em frações de segundo. Poucos sabem, mas algumas usam a cauda para se contorcer no ar e cair de pé. Outras, como as que habitam florestas tropicais de Cingapura, conseguem andar sobre a água em alta velocidade, suficientemente rápido para fugir de jacarés que as devoram numa bocada. Cientistas observaram que elas pulam de uma árvore, correm sobre a água, e sobem em outra árvore. Tudo na mesma velocidade com que trepam em árvores e correm no solo. 

Esse feito merece investigação. Insetos muito leves conseguem andar sobre a água se aproveitando da tensão superficial e sequer penetram na fase líquida. Mas animais maiores, capazes de nadar, geralmente têm densidade semelhante à da água (nosso caso) e se deslocam na interface líquido/ar mantendo grande parte do corpo submerso. Um bom nadador, me demonstrou meu sobrinho Felipe, mantém só a cabeça e parte do tronco fora d’água. 

E, por isso, a velocidade de deslocamento é relativamente baixa, pois é preciso vencer a resistência da água. A densidade das lagartixas é semelhante à nossa. Se anestesiar um desses bichos e o colocar na água, grande parte do corpo afunda e talvez ele afogue. Mas como andam sobre a água?

Os cientistas levaram uma carreta de equipamentos para os pântanos na esperança de filmar bichos correndo sobre a água. Foi um fracasso: eles não gostaram de se exibir para as câmeras. Conformados, os cientistas construíram uma piscina estreita e longa de material transparente, com plataformas em ambas as extremidades e câmeras de alta velocidade em vários ângulos. 

Compradas em pet shop, as lagartixas foram postas em uma das plataformas. Bastava um leve toque na cauda para dispararem caminhando sobre a água. Filmes foram feitos e analisados.

Cientistas observaram que a lagartixa combina diferentes truques. O principal é bater verticalmente na superfície da água com as patas dianteiras, retirando a pata da água antes de afundar muito. O mesmo é feito com as de trás. Esse movimento cria bolhas de água sob as patas. Como isso é feito rapidamente, as bolhas de ar afundam e sobem, dando suporte à lagartixa. Já o movimento horizontal é fornecido pelo balanço da cauda. E assim ela caminha rapidamente sobre o líquido. A pata dianteira bate na água a 57 centímetros por segundo o que garante que só 26% do corpo submerso. Com pouco volume submerso, a lagartixa se move a 2 centímetros por segundo.

Esses dados sugeriam que a lagartixa não utiliza a tensão superficial para se manter na superfície. Mas sabendo que a pele da lagartixa é muito hidrofóbica (repele água), cientistas resolveram testar essa hipótese. Para isso, adicionaram à água um solvente que reduz a tensão superficial e repetiram os experimentos. Nessas condições a lagartixa ainda caminha sobre a água, mas sua velocidade é reduzida pela metade, o dobro de seu corpo fica submerso e as patas penetram mais no líquido. Isso comprova que a lagartixa também se aproveita da tensão superficial para andar sobre a água.

A conclusão é de que a lagartixa usa uma série de estratégias para andar sobre a água: batimento vertical das patas, formação de bolhas sobre os pés, ondulação da cauda e finalmente propriedades hidrofóbicas da pele. Com base nessas descobertas, é possível imaginar que um humano consiga imitar a lagartixa usando algum tipo de pé de pato hidrofóbico e um rápido sapateado. Só não sei como imitar o batimento da cauda. Seria um lindo espetáculo olímpico uma corrida de 100 metros sobre água, evento que poderia ocorrer nas raias de natação.

MAIS INFORMAÇÕES: GECKOS RACE ACROSS THE WATER’S SURFACE USING MULTIPLE MECHANISMS. CURR. BIOL. VOL. 28. PAG. 4046 (2018)

*É BIÓLOGO

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