Biodiversidade brasileira, ainda uma ilustre desconhecida

O Brasil abriga de 10 a 20% das espécies do planeta; está entre os 15 países megadiversos; ocupa o primeiro lugar em espécies conhecidas de mamíferos, peixes de água doce e plantas superiores; fica em segundo lugar em anfíbios, terceiro em aves, quinto em répteis e ainda figura entre os cinco países com maior número de espécies endêmicas, ou seja, que existem apenas em território brasileiro. Mas todos estes rankings baseiam-se num conhecimento parcial, e ainda bem precário, da biodiversidade brasileira. É o que demonstra o primeiro levantamento nacional sobre o status da biodiversidade, que integra o livro GEO Brasil 2002, lançado hoje (3/9) em Joanesburgo, num evento paralelo da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+10). O mesmo estudo serviu de base para a Política Nacional de Biodiversidade, anunciada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em Brasília, no último dia 22 de agosto.O levantamento foi executado em 4 meses, a partir da reunião de informações e dados dispersos, compilados por uma equipe de 11 consultores especializados, sob a coordenação de Gisela Herrmann, da Fundação Biodiversitas. O documento segue uma metodologia internacional, conhecida como SPIR (estado, pressões, impactos e respostas), utilizada pelo Programa das Nações Unidas sobre Meio Ambiente (Pnuma) para estudos semelhantes em todo o mundo, no âmbito do Projeto G.E.O. (Global Environment Outlook Process ou Relatório Perspectivas do Meio Ambiente Mundial). No Brasil, o representante do GEO é o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que editou o relatório juntamente com outros levantamentos sobre desenvolvimento sustentável. ?Embora o Brasil possua altíssima biodiversidade, faltam pesquisas e o desconhecimento das espécies e de suas relações, entre si e com o ambiente, dificulta o manejo e a recuperação, obrigando à adoção de alternativas mais conservadoras?, explica Gisela Herrmann, coordenadora do trabalho. ?Muitos modelos de manejo são baseados em ecossistemas temperados, que funcionam de outra maneira, tem menos espécies e relações bem menos complexas e o problema de tomar decisões de manejo sem informações do mundo tropical é não saber se estamos de fato mantendo aquela biodiversidade, a longo prazo. Provavelmente estamos perdendo muita coisa sem saber?.Os vertebrados, por serem maiores e mais ?atraentes? como objeto de estudo, são mais conhecidos. O número de espécies já descritas no Brasil ? cerca de 6.200 ? aproxima-se do número de espécies total estimadas para o país ? em torno de 8 mil. Isto é, provavelmente já foram descritos 77% dos peixes, mamíferos, aves, répteis e anfíbios, que existem em território brasileiro. ?E, mesmo assim, ainda estão sendo anunciadas descobertas de primatas, que são diurnos e, teoricamente fáceis de observar, imagine como ficam peixes e anfíbios?, acrescenta Gisela.No universo dos invertebrados, então, chega a ser absurda a discrepância entre os conhecidos e desconhecidos. Por exemplo, cerca de 116.500 espécies de artrópodes (besouros, formigas, escorpiões, etc) são conhecidas, mas a estimativa é de um total de 1.214.000 espécies brasileiras, o que significa que só 9,5% foram descritas. E entre os vírus - atualmente tão visados pela biotecnologia ? a situação ainda é pior. São conhecidas umas 400 espécies, quando a estimativa é de que o total esteja em torno de 55 mil, resultando num porcentual de apenas 0,7% de espécies brasileiras conhecidas.E só descrever as espécies não basta. Para tomar decisões de manejo, traçar estratégias adequadas de conservação e assegurar um patrimônio tão invejável é preciso saber como cada espécie se insere na cadeia alimentar, quais as condições ambientais necessárias para sua sobrevivência, quais os impactos de atividades humanas sobre elas e como podem ser exploradas racionalmente. ?Essa riqueza (de espécies) sempre gerou a idéia de que a biodiversidade brasileira é abundante e inesgotável e, porisso, vem sendo explorada de forma irracional e predatória desde os tempos coloniais?, diz o relatório GEO. ?Para reverter esse processo, é fundamental, que a sociedade internalize a idéia de que os recursos só estarão disponíveis para essa e futuras gerações, se utilizados de forma racional, respeitando-se o tempo necessário para sua reposição e regeneração?.

Agencia Estado,

03 de setembro de 2002 | 16h17

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