Bispo de Xingu critica política indigenista

Para D.Erwin Kläutler, presidente do conselho indigenista, Brasil tem cultura "anti-indígena", que dificulta a adoção de política indigenista justa

José Maria Mayrink Enviado, especial/Aparecida,

20 Abril 2012 | 10h51

 O bispo de Xingu (PA), d.Erwin Kläutler, presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), prevê que as administrações petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff entrarão para a história como os governos que destruíram a Amazônia e o povo que vive na região. Falando ao Estado ontem, Dia do Índio, d. Erwin afirmou que esse 19 de abril não é uma data para se comemorar, mas um dia de conscientização, uma hora de chamar a atenção para a situação do índio.

D.Erwin disse que existe no Brasil uma cultura "anti-indígena", na base de afirmações como a de que "é terra demais para poucos índios", que dificulta a adoção de uma política indigenista justa. "Se for aprovada a proposta de emenda da Constituição (PEC) que dá ao Congresso a última palavra para a demarcação de terras, será um retrocesso em relação à Constituição de 1988", afirmou. As terras teriam prioridade, pela sua previsão, para a negócios e exploração econômica.

"A presidente Dilma não ouve ninguém", queixou-se o presidente do Cimi, lamentando que Lula tenha deixado para a sucessora problemas graves, como a violência sofrida pelos índios guarani-kaiowaa em Mato Grosso do Sul e a construção da usina de Belo Monte, no Pará. "Lula me recebeu duas vezes, a segunda junto com representantes dos índios, em julho de 2009, mas não tomou nenhuma medida, porque parecia ser um presidente em campanha", disse d.Erwin.

O bispo revelou que, ao pedir que o povo do Xingu fosse ouvido a respeito da hidrelétrica de Belo Monte, Lula garantiu que não empurraria o projeto "goela abaixo", promessa não cumprida, pois estão valendo os argumentos do governo e de empresas interessadas na obra. "Vão surgir mais umas 60 barragens, a maioria delas na Amazônia", disse d. Erwin. Para ele, "Belo Monte é financeiramente um absurdo, já que a usina vai funcionar só metade do ano". O projeto, acrescentou, é uma agressão sem tamanho de consequências terríveis no coração da Amazônia.

"A cidade de Altamira, de 120 mil habitantes, no Pará, terá um terço de sua área inundada e ficará ao lado de um lago infestado de pernilongos transmissores de malária e dengue", alerta d.Erwin. Aos 72 anos de idade e 30 anos como bispo prelado do Xingu, ele já sofreu quatro malárias. Enfrentou também ameaças de morte e, em 1987, foi vítima de um acidente de carro que até hoje não foi esclarecido.

Há seis anos, o bispo está sob proteção policial, por causa das ameaças de morte que recebeu por causa de sua luta em defesa dos índios. "Quatro agentes da Polícia Militar paraense se revezam, em duplas, em minha casa e por onde ando no Pará", revelou. Quando viaja, d.Erwin tem a proteção de agentes da Polícia Federal. Em Aparecida, onde participa da 50ª Assembleia da CNBB até o dia 26, ele só deixa o hotel e o plenário da reunião acompanhado de seguranças.

MISSA

0 Dia do Índio e a violência contra os povos indígenas foram lembrados também na missa da Assembleia da CNBB celebrada às 7h30 no Santuário de Aparecida. "Os índios são nossos mestres na preservação ambiental e no desenvolvimento sustentável", afirmou na homilia (sermão) o bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM) , d. Edson Tasquetto Damian.

Depois de denunciar os "massacres" de que os índios têm sido vítimas ao longo da história, o bispo citou um diálogo que teve com o papa Bento XVI, em audiência privada no Vaticano, em 2010.

"O povo de sua região está destruindo a floresta?", perguntou o papa, ao constatar que ele dirigia uma diocese na Amazônia. "Tive a alegria de informá-lo de que na Bacia do Rio Negri apenas 4% das florestas foram derrubadas, ao passo que em alguns Estados da Amazônia elas já foram totalmente destruídas pela ganância avassaladora das madeireiras, do agronegócio e das hidrelétricas", contou o bispo.

Em seguida, Bento XVI quis saber da fidelidade dos índios e sua resposta à evangelização. "Os índios são bons católicos, eles se confessam?", perguntou. D.Edson respondeu que todos se confessam e que a maioria começa dizendo: "Agora vou me confessar na minha língua".

"E você entende todas as línguas?", admirou-se o papa. D. Edson observou que seria impossível, porque os índios de sua região falam 18 línguas, todas bem diferentes umas das outras. Mas, como quem perdoa é Deus, justificou-se o bispo, os missionários atendem os índios.

Mais conteúdo sobre:
Aparecida bispos Xingu

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.