Brasil desenvolve sua 1ª linhagem de célula-tronco embrionária

É o primeiro resultado prático obtido no Brasil desde a legalização das pesquisas com embriões humanos

Herton Escobar, de O Estado de S. Paulo,

30 de setembro de 2008 | 17h09

Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) produziram a primeira linhagem de células-tronco embrionárias humanas do Brasil. As células foram obtidas de embriões que estavam congelados em clínicas de fertilização in vitro e que foram doados para pesquisa com a autorização dos genitores.   Descoberta forma mais segura de criar células-tronco  Entenda o uso das células-tronco  Cientistas transformam células humanas em células-tronco Decisão do STF pode ajudar pesquisas, diz geneticista   É o primeiro resultado prático obtido no Brasil desde a legalização das pesquisas com embriões humanos, em 2005, pela Lei de Biossegurança - que foi questionada na Justiça e reconfirmada em maio pelo Supremo Tribunal Federal.   Até agora, mesmo com a autorização legal, como não havia linhagens produzidas no País, pesquisadores brasileiros interessados em trabalhar com células embrionárias humanas eram obrigados a importar linhagens congeladas de laboratórios estrangeiros. "Precisamos ter autonomia. Não podemos ficar dependendo da tecnologia dos outros para sempre", disse ao Estado a geneticista Lygia Pereira, do Instituto de Biociências da USP, que produziu a linhagem em colaboração com a bióloga Ana Maria Fraga. Cerca de 250 embriões, segundo Lygia, precisaram ser descongelados para chegar a essa primeira linhagem. A pesquisa é polêmica porque, para obter as células, é preciso destruir os embriões congelados, que a Igreja e outros críticos consideram seres humanos.   Os embriões foram doados pelas clínicas Fertility, de São Paulo, e Centro de Reprodução Humana Prof. Franco Junior, de Ribeirão Preto, no interior paulista. Eram todos embriões "sobressalentes", que estavam congelados havia mais de três anos - como exige a lei - e não seriam mais usados para fins reprodutivos, segundo os pesquisadores. Em todos os casos, os casais assinaram um termo de consentimento autorizando a doação.       Dificuldades       A maioria dos embriões não resiste ao descongelamento e deteriora-se naturalmente após alguns minutos ou horas - o que ocorreria também se a intenção fosse usá-los para reprodução humana. Dos 250 que foram descongelados, só 30 chegaram ao estágio mais avançado de blastocisto - um embrião de cinco dias e aproximadamente cem células, do qual podem ser extraídas células-tronco (CTEs) pluripotentes, com capacidade para se diferenciar em qualquer tecido do organismo adulto.   Foi um desses blastocistos que deu origem à linhagem batizada de BR-1, que no início da semana já estava com mais de 1 bilhão de células. A paternidade dos embriões é mantida em sigilo pelas clínicas, para proteger a privacidade dos doadores.   Lygia agora continuará a multiplicar as células in vitro, distribuindo amostras para os pesquisadores que quiserem trabalhar com  elas. A grande vantagem das células-tronco, além da pluripotência, é que são "imortais": podem ser multiplicadas in vitro indefinidamente, sem perder suas características.   Com isso, Lygia repete pela primeira vez no Brasil o que foi feito dez anos atrás pelo pesquisador James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), que derivou a primeira linhagem celular de embriões humanos em 1998.   "A única vantagem de começar dez anos depois é que já entramos um passo à frente, com a experiência acumulada de vários laboratórios para nos guiar", diz a geneticista da USP, que também derivou a primeira linhagem brasileira de células-tronco embrionárias de camundongo, em 1999, e criou o primeiro camundongo transgênico do País, em 2001.   Desde então, centenas de linhagens de CTEs já foram produzidas em vários países, entre eles alguns europeus, além de China, Índia e Estados Unidos. Mas ninguém sabe ao certo quantas, já que os trabalhos viraram "rotina" e deixaram de ser publicados em revistas internacionais. "Há muitas linhagens por aí, sem dúvida, mas quantas mais, melhor", disse ao Estado o pesquisador William Lensch, do Children’s Hospital de Boston e do Instituto de Células-Tronco de Harvard. Apesar de haver muitas linhagens de CTEs disponíveis para importação, Lensch considera essencial que países como o Brasil sejam capazes de derivar suas próprias linhagens – que foi, de fato, a grande oportunidade aberta pela Lei de Biossegurança. "Claro que você pode encomendar algumas células no correio, mas, se você aprende a produzi-las por conta própria, vai aprender muito mais."   "O mais importante é o domínio da técnica", avalia também o pesquisador Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que utiliza células-tronco (importadas de Harvard e Wisconsin) para estudar o desenvolvimento de neurônios. Ele deverá ser um dos primeiros usuários da linhagem BR-1. "Certamente é algo que terá uma importância enorme para a comunidade científica brasileira, estimulando outros grupos a trabalhar nessa área", diz.     Estudos comparativos mostram que há muitas diferenças entre linhagens – algumas são melhores para formar neurônios, outras para fibras musculares etc. E ninguém sabe explicar por quê. "Há muita pesquisa básica que ainda precisa ser feita nessa área", diz Lensch.   As células-tronco embrionárias humanas são extremamente difíceis de se cultivar. Após uma série de tentativas frustradas ao longo dos últimos dois anos, Lygia e Ana só comemoraram na quinta-feira passada, quando receberam o resultado de um teste comprovando que as células expressavam genes marcadores da pluripotência – especialmente um chamado Oct-4. "Isso mostrou que eram células-tronco pluripotentes", explica Ana.       Recursos       A pesquisa foi financiada com R$ 250 mil de um edital de R$ 11 milhões, aberto em 2005 pelos Ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia. Teve apoio também do Instituto Mara Gabrilli e da empresa CordVida. Os resultados serão apresentados amanhã no 3º Simpósio Internacional de Terapia Celular, em Curitiba (PR).   Lygia elogiou a postura dos ministérios, que continuaram a financiar o projeto enquanto a Lei de Biossegurança era julgada no STF. "Foi uma sinalização de apoio muito importante." Um novo edital para pesquisas com terapia celular – incluindo células-tronco – foi lançado este ano, no valor de R$ 10 milhões.

Tudo o que sabemos sobre:
célula-tronco

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.